Mar 19

Estava eu apreciando o belo produto tipo exportação que é a teledramaturgia nacional, quando ouço o comentário:

-Só passa sexo, violência e valores desvirtuados nessas novelas. Que belo exemplo estão dando para as pessoas.

Isso, para mim, coloca em questão todo o sistema de produção de entretenimento. Será mesmo que é obrigação da tevê servir de exemplo? Mesmo que não seja, seria correto, para não dizer ético, transmitir programação do tipo que serviu de inspiração à crítica acima?

Vamos partir de dois princípios: esse tipo de conteúdo tem como objetivo atingir o maior público possível; e ele não tem obrigação de ensinar, mas divertir. O ideal talvez fosse aliar educação e entretenimento, mas essa fórmula fatalmente se torna insípida. E, em princípio, não há problema algum nisso. Afinal, cabe aos pais a obrigação de ensinar os filhos, querer transferí-la para a tevê é inocente e preguiçoso.

Mas, nessa queda ladeira abaixo em termos de qualidade, chegamos no cenário atual em que poucas atrações são diferentes de um lixo completo. A reflexão nos leva ao questionamento: as pessoas procuram conteúdo rasteiro, os produtores lhes dão, qual a direção dessa relação causal? A apelação de boa parte da programação é culpa dos espectadores ou de quem está do outro lado da tela?

É fácil resolver isso se lembrarmos que o objetivo da tevê é ser assistida pela maior quantidade possível de pessoas. A qualidade de uma novela é reflexo de seu público, não ele é conseqüência dela, simplesmente porque sua influência não chega a ser tão grande a ponto de afetar o comportamento.

Pode parecer que estou errado, se observarmos o grande poder de persuasão das novelas. Mas ele surge da predisposição do público em aceitar, as pessoas que criam a demanda, então são mais senhoras de si que os ditos grandes interessados por trás dessa suposta manipulação. É uma curiosa manifestação do poder das massas, que podem influenciar quem as influencia.

Não estou vivendo em outro mundo, como pode parecer à primeira vista. A idéia que defendo só não é tão clara a ponto de ser percebida por todos porque a manipulação do público no conteúdo gerado não é voluntária. Mesmo assim, é possível reescrever a crítica que abriu o texto, já que a novela é mais um diagnóstico que um agente, como insistem alguns:

-Só passa sexo, violência e valores desvirtuados nessas novelas. A que ponto chegou o povo.

É normal empurrar a culpa do emburrecimento coletivo para fatores grandes e fora do nosso controle, como a produção de conteúdo na tevê. Mas não é simples assim, essa abordagem é defensiva demais. A raiz do problema é a educação que as pessoas estão recebendo, ela forma o indivíduo que vai querer assitir lixo. As emissoras apenas farão sua parte, dando-lhes lixo.

O cenário sempre fica mais tenebroso quando trazemos o problema para perto de nós mesmos, mas, nesse caso, é o correto a fazer. E, afinal, ninguém disse que a inteligência coletiva necessariamente era inteligente.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quarta-feira, dia 19 de Março de 2008.
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Mar 06

Por uma questão de dias, não sou obrigado a votar esse ano. Não terei completado dezoito até o primeiro turno, mas, ainda assim, tirei meu título de eleitor. Um pouco porque não confiei nessa tecnicalidade, outro pouco porque assim resolvi esse impasse de vez, já que daqui dois anos será obrigatório para mim. É meio estranho o Estado me considerar maduro o suficiente para decidir os futuros governantes mas não para dirigir um carro. Sei que é porque não poderia responder por um crime cometido por mim no trânsito, o que não torna menos estranho.

Minha primeira crítica é sobre a obrigatoriedade do voto. Democracia é ótimo, ela deve ser defendida acima de tudo, concordo com isso. Uma das suas instituições fundamentais é o voto, também não há do que reclamar nisso. Porém, se entendi direito, uma das razões de ela ser louvável como modelo civil é justamente primar pela liberdade. Escolher seus governantes é uma expressão de liberdade, sim, mas abster-se dessa escolha também é uma opção. Por isso faz mais sentido o voto ser uma manifestação voluntária.

Só com essa atitude, a qualidade dos votos já aumentaria. Acredito que a maior parte dos analfabetos políticos não se dariam ao trabalho de votar se não fossem obrigados a isso. Se não por consciência de sua própria situação, por falta de vontade. Há de se considerar o problema da compra de votos, eles poderiam se tornar ainda mais decisivos quando diminui o número de pessoas que votam. Chame de otimismo, mas acredito que o aumento da proporção de votos conscientes entre os não-comprados seria suficiente para desequilibrar a balança para o melhor lado.

Alguns podem alegar que o voto facultativo incentivaria a alienação política. Discordo desse argumento, tirar a obrigatoriedade diminui a resistência, torna a eleição mais atraente. Essa reação varia entre as pessoas, mas acredito que a massa crítica de pessoas bem informadas sentiria isso. Dessa forma, outa vez, a qualidade dos votos aumenta. O que incentivo não é segregação, é dar a possibilidade de não fazer parte do processo àqueles que não querem.

Nesse clima de manifestação política, não posso deixar de comentar minhas impressões sobre uma propaganda institucional passando na tevê. Ela se dirige aos eleitores dos candidatos vencedores das eleições passadas e fala da importância de acompanhar o desempenhos desses políticos. Assim fica fácil, voto em quem tenho certeza de que irá perder e estou livre da preocupação política por quatro anos (ou oito, depende do cargo). E ainda com o privilégio de reclamar dizendo:

- Pois é, eu não votei nele, você sim. Então nem vem reclamar.

Não há argumento mais imbecil que esse, mas já ouvi mais de uma vez. Acompanhar e cobrar os políticos é obrigação de todos, não só dos seus eleitores. Óbvio que falar isso é mais fácil que fazer, mas é a verdade, e ela tem que ser dita.

No final da propaganda há outra frase que destaco, mas com essa eu concordo, por mais paternalista que seja: “O Brasil é tão bom quanto o voto que você colocou na urna”.  É cruel, mas é verdade. Isso me leva à defesa de uma atitude que teria tomado em algumas eleições no passado, se pudesse, votar nulo. Diferente do que afirmam, o voto nulo não é fugir da escolha, esse é o voto em branco. Votar em branco é deixar sua cédula para outro preencher (agora não é mais cédula, mas você entendeu).

O voto nulo é uma manifestação política legítima, sim. E valiosa. É dizer que nenhuma das alternativas é boa o suficiente e você não está disposto a nivelar seu país por baixo escolhendo o menos pior ou o rouba mas faz. Dificilmente alguma eleição chegará a computar o número de votos nulos suficientes para obrigar um novo turno, com outros candidatos, como prevê a lei. Mas não deixa de ser um protesto válido.

O Brasil é tão bom quanto meu voto, então vou votar bem. Nem que isso seja admitir que não há escolha alguma.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 6 de Março de 2008.
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