Mar 28

Quando discuto sobre religião, sempre aparece alguém dizendo que devemos simplesmente respeitar as crenças dos outros. A filosofia simplista do viva e deixe viver. Para esse tipo de gente, a crença pessoal dos outros não nos afeta, acham que forço o argumento quando digo que ela é preocupação de todos.

Leiam esse texto.

Aos olhos do tipo de gente que descrevi no primeiro parágrafo, por mais que concordem que a atitude dos pais tenha sido completamente errada, devemos respeitar sua decisão, afinal, religião não se discute. Eles suportam a decisão dos pais em MATAR a própria filha com toda crueldade. Não consigo entender essa defesa, parece que vem de pessoas que perderam o coração.

Devo dizer: se você acha mesmo que a crença pessoal alheia não lhe diz respeito, você é CÚMPLICE do assassinato. Então, não consigo entender que espécie de amor ao próximo é essa que vocês dizem defender. Eu, que sou ateu, pareço ter mais sentimentos que vocês, religiosos sangue de barata.

A idéia de que devemos simplesmente respeitar as crenças está perigosamente errada. Mas não é difícil entender porque ela é tão difundida: a base de qualquer religião é que a fé deve ser cega, e que quem discute sobre ela está fazendo algo de errado, só nos cabe respeitar. É comum crianças ouvirem isso desde muito cedo, de forma que é possível ela considerar isso certo.

Aprendemos por repetição e imitação, sem necessariamente fazer juízo de valores. Ainda mais quando somos pequenos e devemos obedecer aos outros. Espero que esteja claro, não defendo a desobediência, mas não há razões para crer que o raciocínio crítico seja diferente de todo o resto, ele também deve ser ensinado, e muitas vezes não é. Pessoas que aprenderam a questionar percebem que simplesmente respeitar a religião dos outros não é correto. Devemos discutir o assunto, sim.

Senão, criam-se pessoas cegas, como os pais da garota e os religiosos que os defendem. Em outras palavras, criam-se homicidas.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 28 de Março de 2008.
tags: , ,

Mar 21

http://www.flickr.com/photos/loungerie/1525574884/

Quando escrevi que não abandonaria meu senso de humor, não foi necessariamente a esse tipo de humor que eu me referia. Mas não resisti à piada, ela é deliciosamente herética para eu deixar passar.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 21 de Março de 2008.
tags: , ,

Mar 10

Quando tratei de religiões, pensei em escrever também sobre deus. São dois assuntos correlatos, achei que faria sentido. Eu até tentei criar algo relevante, mas não consegui. Agora, chego a conclusão de que seria perda de tempo. Muitos já falaram sobre isso bem melhor que eu conseguiria, Richard Dawkins é um exemplo que não posso deixar de citar. Se você procura algo para ler sobre o tema, procure os livros dele. Ele é extremamente lúcido quanto trata de deus, algo que mexe com as pessoas ainda mais que as religiões, acredito.

A mim, cabe apenas defender meu ponto de vista. Para isso, eu poderia escrever um texto extenso e cheio de argumentos e demonstrações para sustentar a afirmação de que a probabilidade de deus existir é muito pequena para ser considerada. E que podemos dispensá-lo sem prejuízo para o entendimento do universo e dos fenômenos naturais. Mas isso seria ridículo.

Eu não preciso dizer que não acredito em elefantes rosa voadores, ou no monstro espaguete voador. Seria ridículo da minha parte manifestar meu ateísmo em relação a várias hipóteses absurdas. Histórias sem sentido e pessoas para acreditar nelas surgem todos os dias, eu não ganho nada em me mostrar descrente sobre cada uma delas. Ao contrário, quem espera minha crença deve provar a veracidade do que diz.

Já se passaram milhares de anos desde que alguém afirmou que deus (ou deuses) existia (ou existiam). Até hoje, mesmo com milhões de crentes que sabem da sua existência, mesmo que guerras tenham sido travadas em seu nome, ninguém, repito, ninguém conseguiu provar sua existência. Todos simplesmente acreditam. Simplesmente acreditar não faz do objeto da crença uma realidade. Se há milhares de anos alguém dissesse ter visto um elefante rosa voador, talvez hoje a maior parte das pessoas acreditariam nele. A existência de um elefante rosa voador lhe soaria menos absurda se muitas pessoas cressem nisso?

Nesse momento, aquele que crê em deus se manifesta dizendo que não tenho fé. Vou me defender da acusação tentando entender o que é fé. Esse termo significa confiança, crença, convicção. Seguindo essa definição, tenho fé, sim. Tenho fé nos meus pais, nos meus amigos, em mim mesmo e, principalmente, na dúvida. Acredito na dúvida, ela é capaz de levar a conclusões reais e confiáveis.

Sem provas, a fé em deus é cega. Não tenho fé cega, nem se espera isso de mim, porque acreditar sem provas não é atitude digna de mérito. Faz parte da cultura vigente mostrar o devoto como ser merecedor de honra, quanto mais sem fundamentos sua crença, melhor. Será tão difícil perceber o quanto isso é ridículo? É um ode à estupidez, e ajuda a perpetuar a burrice, como se a ignorância fosse louvável.

Esse tipo de fé é como cigarro, não há dose segura de consumo. Por isso, afirmar que não acredito em deus é ridículo. É desnecessário dizer o óbvio; e simplesmente acreditar em algo é ridículo. Dessa forma, o próprio deus é ridículo.

A única utilidade que lhe resta é como interjeição. Por isso usei esse título, ali é o único lugar em que deus faz sentido.

PS: Quando terminei de revisar o texto, percebi que minha contundência pode soar agressiva para alguns. Correndo o risco de perder parte da força da mensagem, vou tentar me justificar. Não quis apaziguar meu texto escolhendo palavras mais doces justamente porque quero chocar as pessoas com o objetivo de chamar sua atenção e fazer pensar. Se você se ofendeu porque ataquei suas crenças, abra sua mente para a diversidade existente no mundo. Eu não me ofendo quando atacam minhas crenças, e fazem muito isso. Chegando ao cúmulo de dizer que só penso assim porque ainda não vivi o suficiente, que vou mudar no futuro. Acho esse tipo de fala um desrespeito, como se eu não fosse capaz de raciocinar por mim mesmo.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 10 de Março de 2008.
tags: ,

Fev 18

Vou entrar em um assunto que mexe profundamente com muitas pessoas. Então este talvez seja um dos textos mais polêmicos que já escrevi. Estou até preparado para as salsinhas de cristo (tm Cardoso) que eventualmente venham a aparecer. Mas, por favor, se for argumentar contra, não o faça dizendo que eu vou para o inferno por ter essa opinião, caso contrário, eu vou me dar ao direito de lhe ignorar.

Com essa introdução você deve estar esperando uma bomba. Para alguns, pode parecer isso mesmo, para outros, faz todo o sentido. Minha tese: o mundo seria melhor sem as religiões.

Para iniciar, historicamente a igreja foi fundamental na criação de preconceitos. Nunca houve, por parte dela, a tentativa de entender as atitudes que fossem estranhas ao que se estava acostumado. Isso resultou no puritanismo da sociedade atual, que condena as pessoas com base em dogmas milenares. Esses dogmas muitas vezes me parecem criados arbitrariamente, ou talvez fizessem sentido no contexto em que surgiram. Mas o lapso de milênios no tempo fez com que eles perdessem o sentido.

O resultado disso é a intolerância contra homossexuais, por exemplo. Ela está sendo vencida aos poucos, mas ainda é muito comum religiosos tratarem a homosexualidade como doença. Não é preciso dizer o quanto é grande o impacto dessa mentalidade na consciência de pessoas que, por isso, se vêem como pecadoras e erradas. Essa pressão torna a pessoa eternamente infeliz consigo, às vezes força ela a viver uma vida que não é a sua, e eventualmente termina em suicídio.

Outro ponto de destaque é a influência que a religião ainda possui nas decisões do Estado. Supostamente ele é laico, isto é, não é orientado por religião alguma, na prática fica claro que isso é ilusão.

Vou me ater ao exemplo da legalização do aborto. As maiores razões de essa proibição persistir são as questões éticas levantadas pelos grupos religiosos. É especialmente curioso que a lei trata da legalização, não da obrigação. Não se trata de uma política de natalidade que obrigue o aborto, mas sim de dar a possibilidade de fazê-lo àquelas que querem, ou precisam. Ficaria a critério da mulher, ou do casal, decidir como agir, baseado na religião ou na razão, o que preferirem.

Não vou entrar no mérito dessa discussão refutando argumentos como o aborto ser usado como método contraceptivo, ou que é matar um ser humano em potencial. Isso porque esses argumentos são ridículos, nenhuma garota usaria uma cirurgia invasiva e traumática como método anticoncepcional. E falar que o aborto é homicídio seria péssima idéia, porque colocaria toda mulher no papel de assassina, já que uma grande quantidade de embriões naturalmente não se desenvolve. Pensar nisso como um “controle de qualidade divino” também soa insano, basicamente porque é insano, é tratar um ser humano como uma lâmpada, que antes de sair da fábrica precisa ser testada.

Um aspecto importante dessa questão é que o aborto se mostrou bastante eficaz na redução da violência. Essa idéia é mostrada e defendida no ótimo livro Freakonomics. Segundo as pesquisas dos autores, os filhos indesejados têm maior chance de serem criminosos, portanto legalizar o aborto é também uma atitude em prol da sociedade.

Agora, extrapole esse tipo de constatação para outras áreas em que as decisões do Estado são retrógradas por manipulação das religiões, em vez de dar ouvidos aos especialistas. Você verá que o número de vidas negativamente influenciadas por elas é muito maior que o número de beneficiados. E não estou nem trazendo à tona atos como a Santa Inquisição, em que a igreja foi diretamente responsável por milhares de mortos.

Serei ainda mais comedido e responsável na minha argumentação. Não atribuirei à religião o motivo das guerras santas no Oriente Médio, por exemplo. Nesses casos, ela é claramente uma justificativa rasa para um conflito de natureza territorial. Mesmo sendo possível ver nela um agravante nas diferenças entre os povos que batalham, não usarei isso como defesa, porque creio que pessoas dispostas a guerrear o farão, qualquer que seja o motivo, e mesmo na falta de um.

Saindo do lado político, e partindo para o ideológico, é incoerente seguir um conjunto de idéias, ou o que diz um livro, como se aquilo fosse sagrado. As idéias foram pensadas e os livros, escritos, por humanos, então por melhor que sejam, não têm mérito suficiente para serem considerados divinos e eternamente corretos. O problema pode ser ainda pior se tudo for interpretado sem levar em conta que se trata de uma ficção, cheia de alegorias e parábolas. Lembre-se que seguir ao pé da letra as palavras da Bíblia, por exemplo, pode significar ingerir fezes e carne humana.

Outra idéia que faço questão de refutar é de que a religião pode um dia convergir com a ciência. Isso soa ridículo, aos ouvidos de alguém que leva ciência à sério, porque ela é feita seguindo um método, que tem o nada criativo mas bastante auto-explicativo nome de método científico. Se você não sabe do que se trata, siga o link e perceba que envolve observação, criação de uma hipótese e, o mais importante, prova da teoria. Caso ela não explique satisfatoriamente o caso de estudo, é refutada e inicia-se o processo novamente.

Além disso, é comum uma teoria ser colocada na parede por outra, e se essa contestação tiver embasamento, a idéia antiga é substituída. Há uma evolução de pensamento ao longo do tempo. Ao contrário dos dogmas religiosos, estes são criados sem base em evidência alguma, e jamais podem ser questionados depois disso.

Por isso, é impossível unir ciência e religião, elas são fundamentalmente diferentes, desde o mais íntimo que caracteriza cada uma das duas.

Há, ainda, quem defenda a religião alegando ser ela o pilar de moralidade que sustenta a sociedade, que a mantém longe da selvageria. Mesmo se isso estivesse correto, manter uma instituição tão dispendiosa apenas por essa razão seria um erro, o saldo seria negativo, no fim das contas não valeria a pena.

Mas, se você raciocinar um pouco sobre o tema, perceberá que a religião não influi na escolha pessoal de ser bom ou ruim, ou, em última análise, seguir ou burlar as regras estabelecidas pela comunidade em que se vive. Para sustentar essa idéia, peço que observe os não religiosos. A maioria, ao contrário do que a suposição previa, não é selvagem, tampouco é deprimida, ou sem razão para viver. De fato, geralmente são essas pessoas as mentes mais brilhantes e avançadas da humanidade. Nunca ouvi falar, por exemplo, em um não religioso que, para defender seu ponto de vista, lançou aviões sobre prédios cheios de pessoas. Violência dessas, só vejo vinda de religiosos.

Outra prova, é que as pessoas julgam estar moralmente erradas algumas atitudes propagandeadas pelas religiões. É o caso de oferecer suas filhas e mulher para serem abusadas, em troca de sua própria segurança, tal qual alguns personagens bíblicos fizeram. Ou mesmo, na polêmica recente dos preservativos.

A defesa dos religiosos, nesses casos, é que essas posições devem ser analisadas de forma metafórica, ou como equívocos pontuais. Sendo assim, o parâmetro para se basear nas escolhas do que interpretar de forma literal, e o que ver como alegoria, é alheio às religiões. É acessível, portanto, a todos os seres humanos. O que torna a igreja, mais uma vez, irrelevante e dispensável, ou até problemática, porque agrava a dificuldade na escolha de como agir, uma vez que acrescenta complexidade à questão.

A discussão sobre a existência de Deus fica para outro texto, apesar de achar que, se você leu o que escrevi até aqui, já pode presumir minha posição no assunto. Por enquanto, o que digo é: a religião talvez tenha sido uma etapa importante na formação da sociedade, mas já passou da hora de evoluirmos. Em um mundo inteligente no qual nos gabamos de viver, não há lugar para instituições tão inúteis e perigosas, como a igreja e as religiões. São excessos dos quais podemos, e devemos, nos desfazer.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 18 de Fevereiro de 2008.
tags: , , , , , , ,