Mar 30

Antes de começar minha crítica, quero deixar claro que reconheço a importância da polícia. Não sou daqueles anarquistas que defendem o caos. Um sistema que se baseie no bom senso das pessoas seria mesmo ótimo, mas é impraticável, infelizmente. Só funciona na mentalidade pequena desses bolcheviques de mesa de bar. Sendo assim, podemos partir desse ponto: todos precisamos de polícia.

Aliás, não é difícil perceber que estou certo quanto a isso. Uma das poucas experiências de sociedade sem polícia acabou muito mal. Foi em uma cidade do Canadá em que a corporação entrou em greve. Estamos tratando de um país de primeiro mundo, civilizado, teoricamente a melhor amostra de população para tentar estabelecer a anarquia. Ainda assim, nessa situação, as pessoas agiram como selvagens, o número de crimes cometidos aumentou consideravelmente.

Mesmo que seja indesejável, a polícia é absolutamente necessária. Dessa forma, espera-se que ela seja uma das instituições mais sólidas e respeitáveis. Como justificar, então, a cartilha feita pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, órgão do governo federal, com o sugestivo título “A polícia me parou. E agora?“? Nela, há recomendações para evitar abuso policial, entre elas: não tocar o policial, não ameaçá-lo, não fazer movimentos bruscos…

Agora, você deve estar se perguntando: “Onde foi que eu vi isso antes?”. Eu respondo: essas são exatamente as mesmas recomendações dadas para agir quando abordado por um criminoso! E faz sentido, às vezes estamos na posição de tratar quem deveria nos proteger da mesma forma que tratamos quem nos ameaça. Se até o governo federal admite isso, há algo de muito errado.

Não vou generalizar, há alguns policiais que não se enquadram nessa crítica, eles fazem jus a missão de proteger. Mas, pelo que percebo, esses são minoria. Na maior parte das vezes, somos agredidos. E isso vai muito além de tapas e pontapés. Em uma viagem de carro pelo interior do Paraná encontramos um policial rodoviário em um ponto estratégico da pista no qual a faixa se tornava contínua. Lá, ele parava os veículos com a intenção explícita de ganhar propina.

Era perceptível que ele não tinha intenção de multar ou orientar o motorista, ficou jogando conversa fora e sequer estava com um bloco de multas. Praticamente um mendigo de farda. E esse caso está longe de ser exceção, algumas pessoas têm até o hábito de reservar dinheiro para os guardas na estrada, quando vão viajar. A corrupção alastrada dessa forma é, para mim, uma forma de violência.

O mérito dessa discussão não é a quem devemos atribuir a culpa, policiais que recebem propina ou pessoas que aceitam isso e pagam. Meu objetivo é encontrar a solução. E ela é a mudança de mentalidade por parte dos envolvidos. Quando encontramos policiais como os citados, o certo a fazer é não pagar.

Isso envolve alterar a forma com que encaramos o sistema. Para a maioria das pessoas, corrupção é assunto de políticos, somente eles são responsáveis por esse mal. Posição conveniente essa de atribuir os problemas para algo que não podemos controlar. Mas é completamente errado.

Somente os casos de corrupção que envolvem políticos viram escândalos porque eles estão em maior evidência. Porém o mensalão e a caixinha do guarda são igualmente ruins, se não em proporção, com certeza em termos éticos. Ambos vêm do mesmo lugar, então para resolver a questão é preciso mudar o pensamento de cada um.

Por isso não tenho esperança de melhoria no futuro próximo. Talvez a única saída que reste seja mesmo assumir a sujeira toda e institucionalizar a corrupção. Quem sabe fazer como a empresa israelense que pediu dedução no Imposto de Renda pelos gastos com propina? Ela se justificou afirmando que esse tipo de gasto faz parte da tradição do país.

É ridículo e vergonhoso? Sim. Mas é nossa realidade.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Domingo, dia 30 de Março de 2008.
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