Fev 17

Um dos maiores benefícios da revolução tecnológica ocorrida nos tempos modernos é facilitar o acesso às informações. O conhecimento gerado atualmente pelas pessoas é publicado de forma que todos podem ter contato e interagir com o produtor em tempo real. Sem dúvidas, isso é ótimo, contribui para um avanço ímpar na história.

Com a popularização das ferramentas de produção, o volume de conteúdo cresceu incrivelmente. A mais nova face do fenômeno são os sites colaborativos, nos quais os consumidores também fazem as vezes de criadores. Neles, floresce a tão falada sabedoria das multidões.

Há, porém, quem discorde dessa idéia, defendendo que na verdade a multidão é burra. Em parte estão certos, a quantidade de conteúdo de qualidade cresce na mesma proporção que o lixo cultural. Sempre foi assim, mas no mundo superlativo em que vivemos, o fenômeno é exponencial, muito mais perceptível e inebriante.

Nesse ponto que quero chegar. Por mais que existam ferramentas trabalhando em catalogar, qualificar e facilitar a pesquisa pelo critério da relevância, o efeito colateral é drástico. O volume gigante de informação se transforma em uma montanha intrasponível.

Minha intenção não é defender a ignorância, como talvez possa parecer, mas chamar atenção para o efeito psicológico negativo que a quantidade excessiva de conteúdo pode acarretar. Não só fica difícil se achar em meio a milhares de sites que uma busca no Google traz, mas também cria-se uma barreira mental. É um impedimento sutil, que pode ser confundido com a preguiça, mesmo sendo essencialmente diferente. Ele não é percebido pontualmente, mas a longo prazo a estafa fica evidente.

Falando por mim, a velocidade do mundo atual é tão grande que me atropela. Continuo achando tudo muito fascinante, mas fico com a sensação constante de que estou deixando as coisas passarem por mim sem prestar a devida atenção. Está impregnado na minha mente aquele pensamento desconfortável de “estou esquecendo algo”.

Depois de um dia em que li centenas de textos, resta pouco em minha memória. De fato, é humanamente impossível recordar tudo, ou sequer uma fração significativa. Chego ao cúmulo de me perder no próprio pensamento, esqueço a linha de raciocínio que estava seguindo. É uma sensação estranha e irritante, como se, falando comigo mesmo, eu não me desse ouvidos.

Esses brancos são cada vez mais freqüentes, e eu tenho verdadeiro pavor de perder uma idéia entre as lembranças trancadas para eternamente no subconsciente. O que me fez desenvolver o hábito pedante mas necessário de sempre andar com alguma ferramenta de anotação. Seja o celular, o aplicativo de notas do iPod, ou o velho caderninho com caneta.

A paranóia chegou a afetar meu comportamento. Se eu não consigo registrar o que preciso, fico irritadiço, pedindo para as pessoas a minha volta ficarem em silêncio. Deprimente, eu sei. Isso mostra que não confio mais no meu próprio cérebro. Sinal que a senilidade está chegando cada vez mais cedo, no meu caso, aos dezessete.

De repente, é um sinal de que está na hora de aprender uma técnica zen de relaxamento mental. Dizem que ajuda.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Domingo, dia 17 de Fevereiro de 2008.
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