Mar 14

Sempre ouvi dizerem que o mundo real era cruel. A vida é bela, mas o mundo é cruel. Realmente, justiça não parece ser o forte da humanidade. Ainda assim, é possível ser feliz. Quanto mais eu cresço, mais vou deixando para trás esse pensamento de que as coisas vão indo de mal a pior. Não é um otimismo cego da minha parte, nem haveria espaço para isso, mas auto-confiança, acredito que eu consiga dar certo apesar das circunstâncias. Não coloco minha mão no fogo pela espécie, mas também não vou deixar que isso contamine meu mundo particular.

Meu último e mais significativo passo em direção ao mundo real foi ter saído da casa de meus pais. Essa talvez tenha sido a maior mudança pela qual já passei, e não arruinar tudo daqui para frente só depende de mim. Ainda falta muito para poder dizer que encaro o mundo real, então é possível que quebre a cara e mude de idéia no futuro, mas torço para que isso não aconteça. Meu maior medo é fracassar, ver que perdi minha aposta em mim mesmo. Mas esse medo não me paralisa, e sim motiva.

A próxima e derradeira etapa é me emancipar financeiramente. Porque ainda dependo completamente dos meus pais para garantir minha renda, sequer teria tempo de trabalhar se quisesse. Sou muito grato por isso e por tudo mais que eles fizeram e fazem por mim, mas sei que o apoio monetário acabará um dia. E então vou estar definitivamente jogado no mundo real, por enquanto, só posso falar da experiência de morar sozinho.

A primeira barreira encontrada é a prática. Não tinha experiência com afazeres domésticos, talvez tivesse sido melhor treinar antes, mas não encontrei tanta dificuldade quanto imaginava. Lavar, passar, limpar, cozinhar, etc, não é tão complicado assim, não é divertido, lógico, mas pensei que fosse pior. A parte realmente curiosa é que essa mudança de hábitos alterou meu comportamento. Certo dia, quando começou a chover, a primeira coisa que pensei foi “ufa! Ainda bem que tirei a roupa do varal pela manhã”. E é assim com todo mundo, porque ouvi um comentário de um sujeito que estuda comigo: -Ah, eu queria ir no mercado.

Confesso: virei dona-de-casa. E, de repente, aquele pensamento do mundo cruel vai se desvanecendo. Óbvio que a vida é mais que passar roupa, não sou tão ingênuo. Meu ponto é que, se eu consegui tirar aquela mancha da minha toalha, eu posso fazer qualquer coisa, então tudo pode dar certo no final. Vai ver o John Mayer estava mesmo certo na letra de No Such Thing:

“I just found out there’s no such thing as the real world
just to lie you’ve got to rise above”

O mundo não me dá mais tanto medo. E com essa experiência estou aprendendo outra coisa: mudar o ambiente, os hábitos e o comportamento não vai mudar o que eu sou. Se eu quiser mudança preciso me esforçar, ela não virá passivamente. Isso é algo que eu não esperava. Pensava que quando fosse morar sozinho, iria começar uma vida nova, seria quem eu quisesse. Talvez passasse a ser arroz de festa, a beber, a curtir as coisas de forma inconseqüente. Apesar de saber que isso é sinal de imaturidade, sentia um certo remorso de não ter feito, como se faltasse um pedaço da minha adolescência, não tivesse vivido tudo que deveria.

Como eu disse, não funcionou, continuo sendo o mesmo Leandro que acha essa curtição etílica perigosa uma grande bobagem. Mas agora estou conformado, não nasci para ser party boy, posso partir feliz para outra. O saldo é positivo, economizei dinheiro, tempo e uma adolescência brigando com meus pais. Tomara que eu não me arrependa e queira retomar o retroativo no futuro, mas acho muito difícil isso acontecer.

Até agora, está sendo ótimo. Então, que venha o mundo real. Nunca estive tão pronto.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Sexta-feira, dia 14 de Março de 2008.
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Mar 09

Já disse antes que gosto muito de música. Por isso é meio estranho que tenha levado tanto tempo para aparecer uma resenha sobre o assunto. Deve ser porque é realmente complicado escrever sobre o que se gosta. Não que eu desgoste dos outros temas que tratei, mas é diferente. Então, para iniciar, escolhi um artista de quem sou realmente fã, o que torna todo o processo ligeiramente mais complicado para mim, mas espero ter produzido um texto de qualidade.

Antes de realmente iniciar, permita-me apenas um aviso ao senhor(a) leitor(a): assistir os vídeos faz parte do entendimento do artigo, então tome um pouco de tempo para apreciar tudo deste texto. Vai valer a pena, prometo. Agora, chega de introdução, vamos aos fatos.

Um pouco de história: vejo que agora o caminho para o sucesso na carreira musical inicia na gravação de algumas canções em um estúdio caseiro, cada vez mais comuns em tempos de revolução digital. Depois esses takes são divulgados na internet até que alguma gravadora ou selo se interessa pelo artista e termina de produzi-lo.

Não foi assim o início da carreira do John. Ele foi para uma escola de música, depois saiu dela, porque tocar era mais interessante do que ficar estudando como tocar. Seguindo essa lógica, ele foi fazer shows. Na minha opinião, esse é o jeito certo, mostrar serviço e aperfeiçoar a habilidade, apresentando-se onde fosse possível. Nessa época, ele fez mini-turnês de um fim de semana, quando havia uma gig em uma cidade vizinha. Só assim o sucesso tem valor, quando foi conquistado com trabalho.

Essa é uma apresentação do início da carreira do John, em 2001. Repare que ele ainda não era uma estrela, tanto que as pessoas no bar ficam conversando durante a música.

Nesse outro vídeo, ele está divulgando seu álbum em uma loja de discos. A introdução é Pop, do ‘N Sync.

Até hoje, mesmo já sendo um artista de sucesso, ele ainda faz apresentações intimistas desse tipo, esporadicamente. É muito difícil fazer shows assim. Exige muito da pessoa, porque não há suporte nenhum, ela fica completamente despida de recursos. Não há como esconder um erro, ou, em última instância, a falta de talento.

Aliás, talento o John tem de sobra. Além das letras sensacionais, ele é um dos melhores guitarristas que já ouvi tocar. Aprendi, vendo ele, uma técnica que normalmente não se ensina nas aulas de instrumentos: colocar o polegar por cima do braço da guitarra para pressionar a sexta corda. Pode parecer tolice, mas algumas músicas são impossíveis de executar de outra forma.

Depois vim a descobrir que ele não foi a primeira pessoa a usar essa técnica, pelo contrário, ela até é bem comum no meio do blues. Mesmo assim, vale a referência. Se você ainda não conseguiu entender direito do que estou falando, veja essa apresentação de Neon, a mesma canção do primeiro vídeo. Nela, o enquadramento ajuda a mostrar a técnica do polegar. Esta é a canção mais difícil de tocar que já vi na vida.

De uma forma geral, ouvir a guitarra do John fez eu ter de reaprender o instrumento. Além da técnica do polegar, há algumas coisas que nunca tinha visto serem feitas. Em uma canção, por exemplo, ele inventou uma afinação completamente diferente de todas que existem. Quem ouve não percebe, mas quem tenta tocar não consegue se não souber desse segredo.

Mas sigamos, porque ele não ficou a carreira inteira no underground. Para o disco Room for Squares, ele gravou a canção Your Body is a Wonderland. Essa música estourou, com isso, ele ficou famoso nos EUA. Aqui no Brasil, ele ainda é pouco conhecido, mesmo assim, já ouvi mais de uma vez suas músicas no rádio.

Foi com essa canção que ele ganhou seu primeiro Grammy. Então acho importante colocar ela aqui, mesmo sendo o tipo de pessoa que costuma pular as músicas que mais fizeram sucesso:

No disco seguinte, Heavier Things, mais um arrasa-quarteirão: Daughters.

Nesse disco, há uma canção que chegou a tocar um pouco no Brasil, se chama Bigger than my body. Porque, segundo descobri depois, fez parte da trilha sonora de Celebridades, a novela. Não é ótima referência, mas faz parte.

Depois da turnê desse disco, John voltou às raízes do blues. Ele tem reconhecimento nesse meio, tanto que já foi chamado várias vezes para o festival Crossroads, promovido pelo Eric Clapton. Para realizar um desejo antigo, formou um trio que gravou um disco ao vivo e excursionou por um verão inteiro. Chamado John Mayer Trio, esteve com John o baixista da formação moderna do Who, Pino Palladino, e o ex-baterista do Eric Clapton, Steve Jordan.

O disco gravado pelo trio, Try, mostra que é possível fazer um som incrível mesmo com uma formação pequena. Essa nova estética minimalista influenciou o disco de estúdio seguinte do John, Continuum. Tornou-o mais simples e inteligível, sem essa experiência, talvez ele tive seguido um caminho diferente, fazendo músicas menos cruas, e portanto, diretas.

Agora, ele está trabalhando em um disco novo, sem data prevista de lançamento. O que é ótimo, porque significa que ele terá tempo de trabalhar até ficar satisfeito com o material. Deixando, assim, os fãs felizes também.

Para terminar, vamos às atividades extra curriculares. Ele já teve um programa de tevê, em que fazia sketches de humor. Depois de algum tempo, ele admitiu que foi um erro, mas eu vi alguns quadros no YouTube e gostei. Além disso, já escreveu uma coluna em uma revista de guitarristas com pequenas lições sobre o instrumento. Mantém um blog. Participou de keynotes do Steve Jobs. Fez trilha sonora de alguns filmes e uma participação especial em CSI (cantando, não atuando).

Enfim, é um artista completo. Se você não conhece, pode ir atrás. Cada minuto gravado pelo John Mayer vale a pena.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Domingo, dia 9 de Março de 2008.
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