Sempre ouvi dizerem que o mundo real era cruel. A vida é bela, mas o mundo é cruel. Realmente, justiça não parece ser o forte da humanidade. Ainda assim, é possível ser feliz. Quanto mais eu cresço, mais vou deixando para trás esse pensamento de que as coisas vão indo de mal a pior. Não é um otimismo cego da minha parte, nem haveria espaço para isso, mas auto-confiança, acredito que eu consiga dar certo apesar das circunstâncias. Não coloco minha mão no fogo pela espécie, mas também não vou deixar que isso contamine meu mundo particular.
Meu último e mais significativo passo em direção ao mundo real foi ter saído da casa de meus pais. Essa talvez tenha sido a maior mudança pela qual já passei, e não arruinar tudo daqui para frente só depende de mim. Ainda falta muito para poder dizer que encaro o mundo real, então é possível que quebre a cara e mude de idéia no futuro, mas torço para que isso não aconteça. Meu maior medo é fracassar, ver que perdi minha aposta em mim mesmo. Mas esse medo não me paralisa, e sim motiva.
A próxima e derradeira etapa é me emancipar financeiramente. Porque ainda dependo completamente dos meus pais para garantir minha renda, sequer teria tempo de trabalhar se quisesse. Sou muito grato por isso e por tudo mais que eles fizeram e fazem por mim, mas sei que o apoio monetário acabará um dia. E então vou estar definitivamente jogado no mundo real, por enquanto, só posso falar da experiência de morar sozinho.
A primeira barreira encontrada é a prática. Não tinha experiência com afazeres domésticos, talvez tivesse sido melhor treinar antes, mas não encontrei tanta dificuldade quanto imaginava. Lavar, passar, limpar, cozinhar, etc, não é tão complicado assim, não é divertido, lógico, mas pensei que fosse pior. A parte realmente curiosa é que essa mudança de hábitos alterou meu comportamento. Certo dia, quando começou a chover, a primeira coisa que pensei foi “ufa! Ainda bem que tirei a roupa do varal pela manhã”. E é assim com todo mundo, porque ouvi um comentário de um sujeito que estuda comigo: -Ah, eu queria ir no mercado.
Confesso: virei dona-de-casa. E, de repente, aquele pensamento do mundo cruel vai se desvanecendo. Óbvio que a vida é mais que passar roupa, não sou tão ingênuo. Meu ponto é que, se eu consegui tirar aquela mancha da minha toalha, eu posso fazer qualquer coisa, então tudo pode dar certo no final. Vai ver o John Mayer estava mesmo certo na letra de No Such Thing:
“I just found out there’s no such thing as the real world
just to lie you’ve got to rise above”
O mundo não me dá mais tanto medo. E com essa experiência estou aprendendo outra coisa: mudar o ambiente, os hábitos e o comportamento não vai mudar o que eu sou. Se eu quiser mudança preciso me esforçar, ela não virá passivamente. Isso é algo que eu não esperava. Pensava que quando fosse morar sozinho, iria começar uma vida nova, seria quem eu quisesse. Talvez passasse a ser arroz de festa, a beber, a curtir as coisas de forma inconseqüente. Apesar de saber que isso é sinal de imaturidade, sentia um certo remorso de não ter feito, como se faltasse um pedaço da minha adolescência, não tivesse vivido tudo que deveria.
Como eu disse, não funcionou, continuo sendo o mesmo Leandro que acha essa curtição etílica perigosa uma grande bobagem. Mas agora estou conformado, não nasci para ser party boy, posso partir feliz para outra. O saldo é positivo, economizei dinheiro, tempo e uma adolescência brigando com meus pais. Tomara que eu não me arrependa e queira retomar o retroativo no futuro, mas acho muito difícil isso acontecer.
Até agora, está sendo ótimo. Então, que venha o mundo real. Nunca estive tão pronto.
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