Faz algum tempo desde a última vez que publiquei um texto aqui. Talvez vocês tenham pensado que desanimei, ou que morri, opção para os trágicos. Na verdade o lapso se deve à mudança de casa. Fiquei sem internet por mais de uma semana, uma experiência mais difícil do que pensei que seria. Vale dizer que, durante esse intervalo, eu não escrevi nada. Agora considero isso um erro, mesmo que não pudesse publicar, deveria manter a prática. Estou enferrujado, levando muito mais tempo para formular o texto, e chegando em um resultado que fica aquém das minhas expectativas. Todos que trabalham com a criatividade dizem que é assim, mas eu não dei ouvidos, tipo de coisa que só se aprende com a experiência negativa.
E o leitor pensa: “Perdeu preibói, não quero desculpas. Deu uma parada de escrever -’Ema, ema, ema cada um com seus problema’”. Sim, é verdade, mas acho que devia uma satisfação, até para não ficar a sensação de que acontecerá com freqüência.
Nesses dias de exílio, liguei a tevê. A aberta, porque se não tinha internet, não tinha tevê à cabo. Eis que vejo um desses programas vespertinos popularescos com a seguinte proposta: a mulher leva o marido ao programa (talvez haja dias em que façam o oposto, não sei), então a apresentadora pergunta algumas coisas pessoais, principalmente sobre o relacionamento. Enquanto responde, o sujeito é avaliado por um polígrafo, que diz se ele está falando a verdade ou mentindo.
Logicamente, não é simples e direto assim. Ficam naquele clima de suspense para manter certo mistério, e o ibope, por horas. Grande cafajestagem, é verdade, mas lembre-se de que não estão mirando nas classes do início do alfabeto. E, mesmo para quem não gosta, às vezes é tão atraente que pode manter a pessoa assistindo, já aconteceu comigo.
Pessoas com um senso crítico pouco mais apurado, apenas um pouco mesmo, percebem que é falso. É forçado demais, nota-se uma (má) atuação por parte dos participantes. De forma que não é preciso muito para chegar a mesma conclusão que eu.
Mas seria muito amadorismo da minha parte escrever um texto sobre o óbvio, repetindo o que todos já sabem. Não acrescentaria em nada, então, onde quero chegar com isso?, você talvez pergunte. Meu objetivo é uma reflexão que tive quando dei o benefício da dúvida ao programa e, considerando que fosse real, cheguei a conclusão de que não aconteceria isso com um casal saudável. Talvez esteja completamente enganado, mas acompanhe meu raciocínio.
Para iniciar, é importante deixar claro o motivo que levaria o casal ao programa. Eles estão com dificuldades no relacionamento, e querem resolver. O objetivo é a reconciliação, e supostamente os cônjuges acreditam que haja conserto. De outra forma seria perda de tempo investir no que já não há mais.
Mas o relacionamento já acabou se a sinceridade da outra parte do casal precisa ser questionada, a ponto de cogitarem ir em rede nacional para ser testados por uma máquina que arrancaria confidências. Não quero dizer que o amor não deva resistir às dúvidas, mas a honestidade é o pilar principal que sustenta qualquer relação. Se ela ruiu, por mais doloroso que seja, é preciso admitir: o amor acabou. O amor acaba, não ensinam isso na escola mas é verdade. O amor acaba.
Resta apenas uma alternativa para defender a idoneidade do programa. O casal não percebe a importância da sinceridade da mesma forma que eu. Seria plausível, mas acredito que qualquer mente sensata acaba chegando a essa conclusão. Exceto se ela for tomada pelos ciúmes. Mas, nesse caso, uma máquina atestando a veracidade de uma declaração não seria suficiente para calar aquela voz que vem do fundo da mente. O ciumento perde o controle das faculdades mentais, então nenhuma prova bastaria, de forma que ir no programa seria irrelevante.
Do jeito que escrevo, pode dar a impressão errada de que mentir num relacionamento é errado sempre. Logicamente não sou tão categórico, mas há algumas perguntas que não devem ser feitas. Deveria saber-se a resposta, simplesmente questionar seria atestado de óbito da relação. Pensar que o outro pode estar mentindo é sinal de que não o conhece mais, sintoma de que tudo já acabou.
O pensamento que expressei pode parecer melancólico, o que levantaria a dúvida de ter sido escrito por alguém de coração partido. Não é o caso, e mesmo que fosse, vejo beleza indescritível nessa efemeridade das relações. Não que ter essa consciência em mente seja capaz de anestesiar, mas ajuda.
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