Mar 18

O título em latim e com referência a um filósofo é uma forma de estimular o pensamento. Uma manifestação da forma se misturando ao conteúdo, como você verá ao longo do texto. Não tenho certeza da gramática da frase, é que minha fluência em linguas mortas está meio enferrujada. Acho que a intenção já vale, além de que dá um efeito estético interessante.

Há uma curiosa corrente de pensamento que defende a ignorância voluntária como chave da felicidade. Uma espécie de filosofia de vida que prega justamente a abstinência de filosofias. Certamente, é uma idéia atraente. A princípio, desconhecer pode ser anestésico para nossa mente nem sempre disposta a lidar com a realidade cruel. O Inagaki escreveu uma resenha de um livro deveras provocativo sobre o assunto.

A dúvida paira no ar: devemos perseguir o conhecimento, ou será melhor apreciar a situação de ignorar? É fato que algumas verdades podem machucar, de forma que parecem fazer mais mal do que bem. Quando explícitas, elas ferem nosso ego, nossa auto-estima, nossa vontade de cantar uma bela canção.

Ainda assim, acredito eu, é melhor que sejam ditas. A ignorância consentida é o ópio dos fracos. Como com a droga, a sensação de felicidade é falsa, tem prazo de validade. Quando ele vence, voltam os questionamentos e dúvidas de forma ainda mais avassaladora. A situação se configura pior do que no início.

O que defendo não é passar o tempo todo preocupado com o existencialismo. Mas o mínimo que espero é coragem para encarar essas perguntas de frente, sem fugir alegando preferir desconhecer. Defender a ignorância voluntária é discurso de quem quer manipular as pessoas. Afinal, massa de manobra precisa ser dócil.

Nós estamos longe de ter todas as respostas, nem temos tal pretensão. Tenhamos a franqueza de admitir nossa ignorância, mas também não vamos exaltá-la. Isso é essencial, não podemos confundir humildade com conformismo.

Meu argumento ganha força quando lembro que não há ignorância seletiva. Se decidimos ter essa postura de abraçar o desconhecimento como forma de levar a vida, temos de fazer isso por completo em todos os setores. Porque a própria idéia de escolha não cabe, uma vez que pressupõe saber as alternativas e opções.

Fazendo dessa forma, deixamos aberta uma brecha perigosa: podemos facilmente ser explorados e reprimidos. Como na letra de Linguagem do Morro, do Chico:

“Mas como não quer reconhecer
É ele escravo sem ser
De qualquer usurário”

Se o sujeito ignora a tal ponto de não saber que está sendo explorado, não haveria problema algum. Seria possível manter a felicidade mesmo nas condições mais insalubres. Mas sabemos que não é o caso, essa alternativa é completa ficção.

Sendo assim, não vamos perder nosso sono com questões irrelevantes. Ou mesmo passar tempo demais com as relevantes. Mas não adotemos uma postura completamente passiva perante elas. Reparemos que, na maior parte dos casos, quem defende essa postura think-free não faz o que diz.

PS: Esse é meu primeiro artigo com um link para o Pensar Enlouquece, acho que faz sentido celebrar isso com um PS. Questão de coerência. :D

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Terça-feira, dia 18 de Março de 2008.
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Jan 30

Até pouco tempo as pessoas reservavam suas vidas. Havia uma noção clara de privacidade, já que elas tinham total controle do que era seu.

Suas fotos estavam guardadas num álbum dentro de um armário; seus textos e idéias, rabiscados em um velho caderno; seus vídeos, numa fita VHS na estante; suas músicas, num K7 na gaveta; seus compromissos, numa agenda dentro da mochila; seus amigos, em algum lugar importante da memória.

Após a popularização da internet ficaram famosos, e são muito usados, serviços de compartilhamento de informação, em volta dos quais criou-se uma comunidade. As pessoas acostumaram-se a divulgar conteúdo nesses meios. Com isso, foi transposta a barreira que existia entre o privado e o público. O que antes era algo pessoal hoje pode ser acessado por qualquer um.

As fotos foram para o Flickr ou o Picasa; os textos e idéias para um blog ou twitter; os vídeos para o YouTube; as músicas para MySpace; os compromissos para o Google Agenda, e aberta ao público; os amigos, para o profile no Orkut. Alguns vão mais longe e colocam sua vida toda na internet, ao vivo, 24 horas por dia.

O que leva as pessoas a abrirem mão da sua privacidade de forma tão invasiva, participarem desse Big Brother voluntário?

Certamente, uma série de razões. Ser visto e reconhecido, possivelmente ganhar dinheiro, etc. Mas, para mim, o mais importante não é nada disso. O motivo que me levou a criar um blog e escrever nele é outro.

O que realmente me atrai nos blogs são os comentários, a possibilidade de conhecer e discutir idéias diferentes. Isso é genial. Esse é o grande mérito dessa revolução toda, conectar as pessoas.

Colocar em contato pensamentos inovadores de forma tão imediata e direta fará com que evoluamos cada vez mais rápido. Porque poupa-nos o trabalho de reiventar a roda continuas vezes. E quando for resolvida a problemática questão da propriedade das idéias, que inibe algumas pessoas por causa do medo de serem roubadas, estaremos chegando perto da verdadeira singularidade. Não tem volta.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quarta-feira, dia 30 de Janeiro de 2008.
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