Mar 18

O título em latim e com referência a um filósofo é uma forma de estimular o pensamento. Uma manifestação da forma se misturando ao conteúdo, como você verá ao longo do texto. Não tenho certeza da gramática da frase, é que minha fluência em linguas mortas está meio enferrujada. Acho que a intenção já vale, além de que dá um efeito estético interessante.

Há uma curiosa corrente de pensamento que defende a ignorância voluntária como chave da felicidade. Uma espécie de filosofia de vida que prega justamente a abstinência de filosofias. Certamente, é uma idéia atraente. A princípio, desconhecer pode ser anestésico para nossa mente nem sempre disposta a lidar com a realidade cruel. O Inagaki escreveu uma resenha de um livro deveras provocativo sobre o assunto.

A dúvida paira no ar: devemos perseguir o conhecimento, ou será melhor apreciar a situação de ignorar? É fato que algumas verdades podem machucar, de forma que parecem fazer mais mal do que bem. Quando explícitas, elas ferem nosso ego, nossa auto-estima, nossa vontade de cantar uma bela canção.

Ainda assim, acredito eu, é melhor que sejam ditas. A ignorância consentida é o ópio dos fracos. Como com a droga, a sensação de felicidade é falsa, tem prazo de validade. Quando ele vence, voltam os questionamentos e dúvidas de forma ainda mais avassaladora. A situação se configura pior do que no início.

O que defendo não é passar o tempo todo preocupado com o existencialismo. Mas o mínimo que espero é coragem para encarar essas perguntas de frente, sem fugir alegando preferir desconhecer. Defender a ignorância voluntária é discurso de quem quer manipular as pessoas. Afinal, massa de manobra precisa ser dócil.

Nós estamos longe de ter todas as respostas, nem temos tal pretensão. Tenhamos a franqueza de admitir nossa ignorância, mas também não vamos exaltá-la. Isso é essencial, não podemos confundir humildade com conformismo.

Meu argumento ganha força quando lembro que não há ignorância seletiva. Se decidimos ter essa postura de abraçar o desconhecimento como forma de levar a vida, temos de fazer isso por completo em todos os setores. Porque a própria idéia de escolha não cabe, uma vez que pressupõe saber as alternativas e opções.

Fazendo dessa forma, deixamos aberta uma brecha perigosa: podemos facilmente ser explorados e reprimidos. Como na letra de Linguagem do Morro, do Chico:

“Mas como não quer reconhecer
É ele escravo sem ser
De qualquer usurário”

Se o sujeito ignora a tal ponto de não saber que está sendo explorado, não haveria problema algum. Seria possível manter a felicidade mesmo nas condições mais insalubres. Mas sabemos que não é o caso, essa alternativa é completa ficção.

Sendo assim, não vamos perder nosso sono com questões irrelevantes. Ou mesmo passar tempo demais com as relevantes. Mas não adotemos uma postura completamente passiva perante elas. Reparemos que, na maior parte dos casos, quem defende essa postura think-free não faz o que diz.

PS: Esse é meu primeiro artigo com um link para o Pensar Enlouquece, acho que faz sentido celebrar isso com um PS. Questão de coerência. :D

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Terça-feira, dia 18 de Março de 2008.
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Mar 10

Quando tratei de religiões, pensei em escrever também sobre deus. São dois assuntos correlatos, achei que faria sentido. Eu até tentei criar algo relevante, mas não consegui. Agora, chego a conclusão de que seria perda de tempo. Muitos já falaram sobre isso bem melhor que eu conseguiria, Richard Dawkins é um exemplo que não posso deixar de citar. Se você procura algo para ler sobre o tema, procure os livros dele. Ele é extremamente lúcido quanto trata de deus, algo que mexe com as pessoas ainda mais que as religiões, acredito.

A mim, cabe apenas defender meu ponto de vista. Para isso, eu poderia escrever um texto extenso e cheio de argumentos e demonstrações para sustentar a afirmação de que a probabilidade de deus existir é muito pequena para ser considerada. E que podemos dispensá-lo sem prejuízo para o entendimento do universo e dos fenômenos naturais. Mas isso seria ridículo.

Eu não preciso dizer que não acredito em elefantes rosa voadores, ou no monstro espaguete voador. Seria ridículo da minha parte manifestar meu ateísmo em relação a várias hipóteses absurdas. Histórias sem sentido e pessoas para acreditar nelas surgem todos os dias, eu não ganho nada em me mostrar descrente sobre cada uma delas. Ao contrário, quem espera minha crença deve provar a veracidade do que diz.

Já se passaram milhares de anos desde que alguém afirmou que deus (ou deuses) existia (ou existiam). Até hoje, mesmo com milhões de crentes que sabem da sua existência, mesmo que guerras tenham sido travadas em seu nome, ninguém, repito, ninguém conseguiu provar sua existência. Todos simplesmente acreditam. Simplesmente acreditar não faz do objeto da crença uma realidade. Se há milhares de anos alguém dissesse ter visto um elefante rosa voador, talvez hoje a maior parte das pessoas acreditariam nele. A existência de um elefante rosa voador lhe soaria menos absurda se muitas pessoas cressem nisso?

Nesse momento, aquele que crê em deus se manifesta dizendo que não tenho fé. Vou me defender da acusação tentando entender o que é fé. Esse termo significa confiança, crença, convicção. Seguindo essa definição, tenho fé, sim. Tenho fé nos meus pais, nos meus amigos, em mim mesmo e, principalmente, na dúvida. Acredito na dúvida, ela é capaz de levar a conclusões reais e confiáveis.

Sem provas, a fé em deus é cega. Não tenho fé cega, nem se espera isso de mim, porque acreditar sem provas não é atitude digna de mérito. Faz parte da cultura vigente mostrar o devoto como ser merecedor de honra, quanto mais sem fundamentos sua crença, melhor. Será tão difícil perceber o quanto isso é ridículo? É um ode à estupidez, e ajuda a perpetuar a burrice, como se a ignorância fosse louvável.

Esse tipo de fé é como cigarro, não há dose segura de consumo. Por isso, afirmar que não acredito em deus é ridículo. É desnecessário dizer o óbvio; e simplesmente acreditar em algo é ridículo. Dessa forma, o próprio deus é ridículo.

A única utilidade que lhe resta é como interjeição. Por isso usei esse título, ali é o único lugar em que deus faz sentido.

PS: Quando terminei de revisar o texto, percebi que minha contundência pode soar agressiva para alguns. Correndo o risco de perder parte da força da mensagem, vou tentar me justificar. Não quis apaziguar meu texto escolhendo palavras mais doces justamente porque quero chocar as pessoas com o objetivo de chamar sua atenção e fazer pensar. Se você se ofendeu porque ataquei suas crenças, abra sua mente para a diversidade existente no mundo. Eu não me ofendo quando atacam minhas crenças, e fazem muito isso. Chegando ao cúmulo de dizer que só penso assim porque ainda não vivi o suficiente, que vou mudar no futuro. Acho esse tipo de fala um desrespeito, como se eu não fosse capaz de raciocinar por mim mesmo.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 10 de Março de 2008.
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Mar 08

O patriotismo é um dos valores mais fortes no caráter das pessoas. Os países se esforçam em tornar seus cidadãos seres apaixonados pela nação, o que faz sentido, eleva a auto-estima do sujeito com a sensação de unidade ao mesmo tempo que o torna mais fácil de manobrar. Lógico que às vezes não é bom, o patriotismo foi um dos pilares da política de Hitler (por gentileza, ignore a Lei de Godwin e continue lendo o texto), mas, na maior parte dos casos, amor à pátria é bem-vindo.

Entretanto, eu não faço parte da massa de manobra. Não vou gostar do meu país só porque é o que se espera de mim, ou por causa de uma propaganda de tevê me dizendo que o Brasil é o máximo e que o brasileiro não desiste nunca. Vou procurar razões para fazer justiça ao hino e idolatrar minha terra natal. Eu procuro e, infelizmente, não encontro muito do que me orgulhar.

Exceto por alguns destaques nos esportes, sobra pouco para despertar o patriotismo. E mesmo nesses casos, vendo a biografia dos atletas, é possível perceber que o mérito é todo deles, não do país. Pelo contrário, muitas vezes, a pátria foi um impecílio, não colaborou com nada e dificultou o caminho, já que além dos desafios das modalidades esportivas, eles precisaram enfrentar barreiras sociais e econômicas. Muito me surpreende que eles ainda queiram defender essa bandeira.

Depois de chegar nesse ponto, já decepcionado mas ainda com esperança, vamos à pergunta: se o Brasil não está legal, como vamos consertar? Um bom começo é entender o problema. Nesse momento, podemos usar um discurso default de político em propaganda eleitoral, afinal, se há alguém que deve conhecer o país e seus entraves, é o sujeito que está disposto a governá-lo. E a eleição é a hora de revelar as dificuldades, geralmente para colocar a culpa nos outros governos, e mostrar a própria competência em resolvê-las.

Seguindo esse método, identificamos como problemáticos os serviços básicos: educação, saúde, policiamento, infra-estrutura, etc. Se essas obrigações do governo fossem cumpridas de forma satisfatória, teríamos a base consolidada para alcançar o crescimento e projeção que almejamos. O sucesso de uma nação em qualquer área é conseqüência direta do investimento nela, exemplo trivial é o da Índia, que se tornou referência em programação e serviço de call center depois de gastar com ensino. Isso levaria a crer que a solução é dinheiro.

Se é assim, Raul estava certo, a solução para o nosso povo é alugar o Brasil. Mas isso não condiz com a realidade, estamos batendo recordes de arrecadação. Então o problema é outro, estamos gastando mal. Agora temos que falar de corrupção, afinal qualquer brasileiro sabe que é disso que se trata. E a maior parte de nós reclama, xinga os políticos, ameaça-os, não fazemos nenhum movimento organizado para efetivamente protestar, mas o sentimento é comum.

De fato, é curioso, somos insatisfeitos e politicamente calados. Na minha mente, são incompatíveis a revolta e a apatia, mas é assim o povo de uma forma geral. Dito isso deixe-me voltar ao meu tema, que não é incentivar a revolução armada, mas entender o problema do Brasil. Minha linha de raciocínio a partir de agora é: se falamos mal dos políticos, é porque faríamos diferente deles no seu lugar, talvez melhor, talvez pior, mas necessariamente diferente.

Estatísticamente, está provado que não é verdade. A maior parte das pessoas, especialmente as das classes mais baixas, agiria exatamente da mesma forma corrupta, em uma hipotética situação de poder. E isso é lógico, os governantes são um reflexo do povo que representam. É a aplicação prática da máxima: cada país tem o político que merece.

Agora sim, chegamos no âmago da questão, o Brasil não é um país sério. O problema é mentalidade coletiva, o problema do Brasil é o brasileiro. Parece estranho que uma situação tão grande, que teimamos em exteriorizar, colocando a culpa nos outros, é de fato conseqüência do que nós somos. Mas se você refletir sobre o assunto, perceberá que faz sentido, uma nação é resultado do seu povo.

Estou generalizando a figura do brasileiro, que fique claro. Existem numerosas exceções, infelizmente essa não é a realidade da maioria. Grande parte das pessoas é do tipo que glorifica a pobreza, como se ela fosse atestado de humildade e, portanto, de credibilidade. A opinião de que não é miserável não tem valor, porque veio de alguém que não passa fome. Deveria ser o contrário, essa voz deveria ser ouvida com mais respeito, porque é de quem teve oportunidade de estudar, mas sabedoria deixou de ser uma prioridade. Muitas vezes, essa espécie de inveja é elaborada em raiva. As pessoas passam a não gostar de quem alcançou o sucesso.

É ainda mais triste perceber essa postura vinda do governo. Suas obras assitencialistas visam os pobres, e eles fazem a cortesia com o chapéu da classe média. Enquanto ela está lançada a sua própria sorte. Não há um incentivo sequer, pelo contrário, ela deve lutar contra a burocracia. E a razão para essa política populista é óbvia, conseguir votos.

Mudar a mentalidade de uma nação é muito difícil. Bem mais complicado que conseguir dinheiro, por exemplo. Por isso, eu perdi a esperança. Assim fica impossível ser patriota, esse sentimento importante de se orgulhar de pertencer a um povo, eu não tenho mais. Não sou do tipo que só da valor ao que vem de fora, seria igualmente burro. Apenas sou um sujeito ponderado e sem fé no seu país.

Se é amá-lo ou deixá-lo, deixá-lo-ei*. Não é possível fazer isso agora, mas é um plano. Não sou mulher de malandro, para mim, chega.

*A primeira vez usando mesóclise a gente não esquece.

**Meio que roubei esse tema da Layla.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Sábado, dia 8 de Março de 2008.
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Mar 06

Por uma questão de dias, não sou obrigado a votar esse ano. Não terei completado dezoito até o primeiro turno, mas, ainda assim, tirei meu título de eleitor. Um pouco porque não confiei nessa tecnicalidade, outro pouco porque assim resolvi esse impasse de vez, já que daqui dois anos será obrigatório para mim. É meio estranho o Estado me considerar maduro o suficiente para decidir os futuros governantes mas não para dirigir um carro. Sei que é porque não poderia responder por um crime cometido por mim no trânsito, o que não torna menos estranho.

Minha primeira crítica é sobre a obrigatoriedade do voto. Democracia é ótimo, ela deve ser defendida acima de tudo, concordo com isso. Uma das suas instituições fundamentais é o voto, também não há do que reclamar nisso. Porém, se entendi direito, uma das razões de ela ser louvável como modelo civil é justamente primar pela liberdade. Escolher seus governantes é uma expressão de liberdade, sim, mas abster-se dessa escolha também é uma opção. Por isso faz mais sentido o voto ser uma manifestação voluntária.

Só com essa atitude, a qualidade dos votos já aumentaria. Acredito que a maior parte dos analfabetos políticos não se dariam ao trabalho de votar se não fossem obrigados a isso. Se não por consciência de sua própria situação, por falta de vontade. Há de se considerar o problema da compra de votos, eles poderiam se tornar ainda mais decisivos quando diminui o número de pessoas que votam. Chame de otimismo, mas acredito que o aumento da proporção de votos conscientes entre os não-comprados seria suficiente para desequilibrar a balança para o melhor lado.

Alguns podem alegar que o voto facultativo incentivaria a alienação política. Discordo desse argumento, tirar a obrigatoriedade diminui a resistência, torna a eleição mais atraente. Essa reação varia entre as pessoas, mas acredito que a massa crítica de pessoas bem informadas sentiria isso. Dessa forma, outa vez, a qualidade dos votos aumenta. O que incentivo não é segregação, é dar a possibilidade de não fazer parte do processo àqueles que não querem.

Nesse clima de manifestação política, não posso deixar de comentar minhas impressões sobre uma propaganda institucional passando na tevê. Ela se dirige aos eleitores dos candidatos vencedores das eleições passadas e fala da importância de acompanhar o desempenhos desses políticos. Assim fica fácil, voto em quem tenho certeza de que irá perder e estou livre da preocupação política por quatro anos (ou oito, depende do cargo). E ainda com o privilégio de reclamar dizendo:

- Pois é, eu não votei nele, você sim. Então nem vem reclamar.

Não há argumento mais imbecil que esse, mas já ouvi mais de uma vez. Acompanhar e cobrar os políticos é obrigação de todos, não só dos seus eleitores. Óbvio que falar isso é mais fácil que fazer, mas é a verdade, e ela tem que ser dita.

No final da propaganda há outra frase que destaco, mas com essa eu concordo, por mais paternalista que seja: “O Brasil é tão bom quanto o voto que você colocou na urna”. É cruel, mas é verdade. Isso me leva à defesa de uma atitude que teria tomado em algumas eleições no passado, se pudesse, votar nulo. Diferente do que afirmam, o voto nulo não é fugir da escolha, esse é o voto em branco. Votar em branco é deixar sua cédula para outro preencher (agora não é mais cédula, mas você entendeu).

O voto nulo é uma manifestação política legítima, sim. E valiosa. É dizer que nenhuma das alternativas é boa o suficiente e você não está disposto a nivelar seu país por baixo escolhendo o menos pior ou o rouba mas faz. Dificilmente alguma eleição chegará a computar o número de votos nulos suficientes para obrigar um novo turno, com outros candidatos, como prevê a lei. Mas não deixa de ser um protesto válido.

O Brasil é tão bom quanto meu voto, então vou votar bem. Nem que isso seja admitir que não há escolha alguma.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 6 de Março de 2008.
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Fev 18

Vou entrar em um assunto que mexe profundamente com muitas pessoas. Então este talvez seja um dos textos mais polêmicos que já escrevi. Estou até preparado para as salsinhas de cristo (tm Cardoso) que eventualmente venham a aparecer. Mas, por favor, se for argumentar contra, não o faça dizendo que eu vou para o inferno por ter essa opinião, caso contrário, eu vou me dar ao direito de lhe ignorar.

Com essa introdução você deve estar esperando uma bomba. Para alguns, pode parecer isso mesmo, para outros, faz todo o sentido. Minha tese: o mundo seria melhor sem as religiões.

Para iniciar, historicamente a igreja foi fundamental na criação de preconceitos. Nunca houve, por parte dela, a tentativa de entender as atitudes que fossem estranhas ao que se estava acostumado. Isso resultou no puritanismo da sociedade atual, que condena as pessoas com base em dogmas milenares. Esses dogmas muitas vezes me parecem criados arbitrariamente, ou talvez fizessem sentido no contexto em que surgiram. Mas o lapso de milênios no tempo fez com que eles perdessem o sentido.

O resultado disso é a intolerância contra homossexuais, por exemplo. Ela está sendo vencida aos poucos, mas ainda é muito comum religiosos tratarem a homosexualidade como doença. Não é preciso dizer o quanto é grande o impacto dessa mentalidade na consciência de pessoas que, por isso, se vêem como pecadoras e erradas. Essa pressão torna a pessoa eternamente infeliz consigo, às vezes força ela a viver uma vida que não é a sua, e eventualmente termina em suicídio.

Outro ponto de destaque é a influência que a religião ainda possui nas decisões do Estado. Supostamente ele é laico, isto é, não é orientado por religião alguma, na prática fica claro que isso é ilusão.

Vou me ater ao exemplo da legalização do aborto. As maiores razões de essa proibição persistir são as questões éticas levantadas pelos grupos religiosos. É especialmente curioso que a lei trata da legalização, não da obrigação. Não se trata de uma política de natalidade que obrigue o aborto, mas sim de dar a possibilidade de fazê-lo àquelas que querem, ou precisam. Ficaria a critério da mulher, ou do casal, decidir como agir, baseado na religião ou na razão, o que preferirem.

Não vou entrar no mérito dessa discussão refutando argumentos como o aborto ser usado como método contraceptivo, ou que é matar um ser humano em potencial. Isso porque esses argumentos são ridículos, nenhuma garota usaria uma cirurgia invasiva e traumática como método anticoncepcional. E falar que o aborto é homicídio seria péssima idéia, porque colocaria toda mulher no papel de assassina, já que uma grande quantidade de embriões naturalmente não se desenvolve. Pensar nisso como um “controle de qualidade divino” também soa insano, basicamente porque é insano, é tratar um ser humano como uma lâmpada, que antes de sair da fábrica precisa ser testada.

Um aspecto importante dessa questão é que o aborto se mostrou bastante eficaz na redução da violência. Essa idéia é mostrada e defendida no ótimo livro Freakonomics. Segundo as pesquisas dos autores, os filhos indesejados têm maior chance de serem criminosos, portanto legalizar o aborto é também uma atitude em prol da sociedade.

Agora, extrapole esse tipo de constatação para outras áreas em que as decisões do Estado são retrógradas por manipulação das religiões, em vez de dar ouvidos aos especialistas. Você verá que o número de vidas negativamente influenciadas por elas é muito maior que o número de beneficiados. E não estou nem trazendo à tona atos como a Santa Inquisição, em que a igreja foi diretamente responsável por milhares de mortos.

Serei ainda mais comedido e responsável na minha argumentação. Não atribuirei à religião o motivo das guerras santas no Oriente Médio, por exemplo. Nesses casos, ela é claramente uma justificativa rasa para um conflito de natureza territorial. Mesmo sendo possível ver nela um agravante nas diferenças entre os povos que batalham, não usarei isso como defesa, porque creio que pessoas dispostas a guerrear o farão, qualquer que seja o motivo, e mesmo na falta de um.

Saindo do lado político, e partindo para o ideológico, é incoerente seguir um conjunto de idéias, ou o que diz um livro, como se aquilo fosse sagrado. As idéias foram pensadas e os livros, escritos, por humanos, então por melhor que sejam, não têm mérito suficiente para serem considerados divinos e eternamente corretos. O problema pode ser ainda pior se tudo for interpretado sem levar em conta que se trata de uma ficção, cheia de alegorias e parábolas. Lembre-se que seguir ao pé da letra as palavras da Bíblia, por exemplo, pode significar ingerir fezes e carne humana.

Outra idéia que faço questão de refutar é de que a religião pode um dia convergir com a ciência. Isso soa ridículo, aos ouvidos de alguém que leva ciência à sério, porque ela é feita seguindo um método, que tem o nada criativo mas bastante auto-explicativo nome de método científico. Se você não sabe do que se trata, siga o link e perceba que envolve observação, criação de uma hipótese e, o mais importante, prova da teoria. Caso ela não explique satisfatoriamente o caso de estudo, é refutada e inicia-se o processo novamente.

Além disso, é comum uma teoria ser colocada na parede por outra, e se essa contestação tiver embasamento, a idéia antiga é substituída. Há uma evolução de pensamento ao longo do tempo. Ao contrário dos dogmas religiosos, estes são criados sem base em evidência alguma, e jamais podem ser questionados depois disso.

Por isso, é impossível unir ciência e religião, elas são fundamentalmente diferentes, desde o mais íntimo que caracteriza cada uma das duas.

Há, ainda, quem defenda a religião alegando ser ela o pilar de moralidade que sustenta a sociedade, que a mantém longe da selvageria. Mesmo se isso estivesse correto, manter uma instituição tão dispendiosa apenas por essa razão seria um erro, o saldo seria negativo, no fim das contas não valeria a pena.

Mas, se você raciocinar um pouco sobre o tema, perceberá que a religião não influi na escolha pessoal de ser bom ou ruim, ou, em última análise, seguir ou burlar as regras estabelecidas pela comunidade em que se vive. Para sustentar essa idéia, peço que observe os não religiosos. A maioria, ao contrário do que a suposição previa, não é selvagem, tampouco é deprimida, ou sem razão para viver. De fato, geralmente são essas pessoas as mentes mais brilhantes e avançadas da humanidade. Nunca ouvi falar, por exemplo, em um não religioso que, para defender seu ponto de vista, lançou aviões sobre prédios cheios de pessoas. Violência dessas, só vejo vinda de religiosos.

Outra prova, é que as pessoas julgam estar moralmente erradas algumas atitudes propagandeadas pelas religiões. É o caso de oferecer suas filhas e mulher para serem abusadas, em troca de sua própria segurança, tal qual alguns personagens bíblicos fizeram. Ou mesmo, na polêmica recente dos preservativos.

A defesa dos religiosos, nesses casos, é que essas posições devem ser analisadas de forma metafórica, ou como equívocos pontuais. Sendo assim, o parâmetro para se basear nas escolhas do que interpretar de forma literal, e o que ver como alegoria, é alheio às religiões. É acessível, portanto, a todos os seres humanos. O que torna a igreja, mais uma vez, irrelevante e dispensável, ou até problemática, porque agrava a dificuldade na escolha de como agir, uma vez que acrescenta complexidade à questão.

A discussão sobre a existência de Deus fica para outro texto, apesar de achar que, se você leu o que escrevi até aqui, já pode presumir minha posição no assunto. Por enquanto, o que digo é: a religião talvez tenha sido uma etapa importante na formação da sociedade, mas já passou da hora de evoluirmos. Em um mundo inteligente no qual nos gabamos de viver, não há lugar para instituições tão inúteis e perigosas, como a igreja e as religiões. São excessos dos quais podemos, e devemos, nos desfazer.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 18 de Fevereiro de 2008.
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Fev 16

Supostamente, deveria ser muito simples para mim, emitir uma opinião sobre a pirataria. Meus pais me sustentam, e eles vivem das locadoras de filmes que têm. Então, dependo do aluguel de dvds legalizados, sendo assim, eu deveria combater a pirataria e ser veemente contra ela.

Pois não é assim que funciona, porque sou ponderado, então deixe-me elaborar um pouco mais. Por um lado é claro que a pirataria está matando as produtoras tradicionais de conteúdo. O baque na indústria é forte e percebido por todos que estão no meio. Mas se você analisar a fundo, verá que ela estava fadada a acabar, de uma forma ou de outra, pelo menos nos moldes tradicionais que reconhecidamente funcionaram no século passado.

Com a revolução tecnológica que vivemos, e a facilidade de acesso às ferramentas de produção, está claro que evoluiríamos para a criação e consumo localizados. É a formação de nichos que prega a teoria da cauda longa. De forma que a pirataria no máximo está acelerando um processo natural.

Há de se admitir, ainda, que em alguns casos a pirataria foi involuntariamente a melhor promoção que um produto poderia ter. É o caso do megahype do Tropa de Elite, por exemplo. O filme é ótimo, um dos melhores filmes nacionais que já vi. Apesar de explorar um tema que já se tornou repetitivo, é de qualidade comparável ou superior aos padrões americanos. E sem se render a ele, pois possui uma estética genuinamente nacional.

Mesmo assim, eu duvido que ele teria feito tanto sucesso se não tivesse vazado antes e virado notícia. É triste que isso seja a verdade, mas ser piratiado foi bom, nesse caso.

Outro exemplo disso é o jailbreak do iPhone. Não fosse ele, as vendas do aparelho não seriam as mesmas. Especialmente para os consumidores das áreas não abençoadas pela Apple, onde comprar um iPhone seria jogar dinheiro fora. Sendo assim, por mais que eles digam que quem desbloqueou não é cliente Apple, eles estão ganhando com a pirataria. Levantam-se outras questões referentes a isso, mas são secundárias para o que estou discutindo.

Até entre os softwares que ganham com licenças, vejo um lado positivo na pirataria. Não fossem os desenvolvedores que usam o Adobe Flash pirata, por exemplo, dificilmente ele teria se tornado padrão na web. E isso inibiria a venda para aqueles que realmente pagam. Com o Windows acontece o mesmo.

Sei que essa defesa é paternalista e problemática. De fato, em um mundo ideal a pirataria não seria necessária, todos pagariam pelos produtos que consomem e seriam felizes. Mas não é assim que funciona no meu mundo, e especialmente no país onde vivo.

Para piorar a situação, as produtoras de conteúdo vão na contramão. Elas não se ajudam, relutam em se adaptar à nova realidade. Espera-se que elas mudassem seus planos de negócios. Diminuindo os preços para entrar na competição, ou justificando a diferença com um produto de alta qualidade, para atingir os públicos mais exigentes.

Não é o que vejo, os CDs hoje em dia, por exemplo, custam uma fortuna, e tem acabamento abaixo da crítica. Muitas vezes o encarte é apenas uma folha dobrada ao meio. Isso sem falar nas táticas frustradas de entrar pela porta dos fundos em um mercado que não conhecem mais.

Mesmo correndo o risco de contaminar meu argumento por me fazer parecer um apologista, tenho que confessar que sou um pirata, também. Tenho muitos gigas de músicas e softwares ilegais. Talvez isso seja culpa do preço ou da falta de oferta, no caso das canções, já que não há uma loja de venda on-line decente no Brasil. Mas não é justificativa convincente o suficiente, sei que estou agindo errado e não me orgulho disso.

Para aumentar a contradição, defendo os direitos autorais sobre textos. Copiar e dizer que é seu, um artigo de um blog cuja licença não permite tal prática, é pirataria, e é uma atitude nojenta. Mesmo que esteja sob uma licença permissiva, assumir a autoria de algo feito pelos outros é falta de respeito. Não acho isso só porque estou escrevendo um blog, já tinha essa idéia muito antes de começar. E não estou sozinho nessa defesa.

Não encontrei ainda nenhum texto meu em outros lugares, sem que eu tenha dado permissão. Mas creio que isso acontecerá, porque infelizmente parece ocorrer com freqüência. O que denuncia a falta de capacidade de produzir conteúdo de qualidade e a falta de caráter em se apropriar do material alheio existente em muita gente.

É complicada minha opinião sobre o assunto. Muitas vezes reflito sobre algum aspecto de forma diferente do que fazia antes, e chego a uma nova conclusão, mudando de opinião. Por isso, posso vir a discordar do que disse aqui, e escrever sobre isso novamente no futuro. Por enquanto, é isso que penso.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sábado, dia 16 de Fevereiro de 2008.
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Fev 05

Eu sou um grande incentivador do modelo de negócios baseado em publicidade. Ele permite criar um produto de qualidade que rende de forma justa e pode ser distribuído com custo baixo ou nulo. É o que penso ser mais apropriado para conteúdo digital, exceto talvez no caso de aplicações de grande porte que atendem nichos específicos.

Grandes empresas provam que é possível ganhar (muito) dinheiro sem precisar colocar uma etiqueta de preço ao lado da mercadoria. E um dos pilares da prática é manter a publicidade com grande visibilidade tomando o cuidado de não ser obstrusivo. Isso porque um anúncio escondido não será visto, e um anúncio que impede o aproveitamento do conteúdo é contravenção, vai contra a essência do que se espera do modelo.

Uma peça publicitária mal colocada pode fazer o usuário se incomodar e ir embora, ou pior, se perder. Acredito que visitantes felizes gerem maior renda, e mesmo que isso não seja verdade, tenho certeza de que os insatisfeitos terão pouco incentivo para retornar ao site. A longo prazo isso se refletirá nos rendimentos de forma brutal.

A publicidade do século XXI DEVE ser entretenimento também. Em um contexto onde o botão de fechar pode ser acionado a qualquer momento, ou o conteúdo pode ser adquirido livre de anúncios facilmente (por vias legais ou ilegais, para o escopo desse artigo, isso não interessa), se a peça não chamar atenção por ter conteúdo, será ignorada. A marca só se fixará na mente do consumidor se for atraente, caso contrário a propaganda não será vista, ficará no ponto cego do olho do usuário.

Para atingir esse objetivo, vale tudo: campanha viral, abordagem baseada em valores dos grupos que são público-alvo, investimento em meios alternativas, como posts patrocinados em blogs, etc.

Dito isso, estava eu lendo uma lista de discussão de um grupo do Yahoo, quando me deparo com a seguinte tela:

Tela de propaganda do Yahoo Grupos

Clique para ampliar

Desculpe, Yahoo, vocês entenderam errado.

Junto de cada uma das mensagens da lista, aparece uma publicidade. Logo ao lado do texto, antes da dobra, local nobre, de alta visibilidade. Nada mais justo, afinal eu não estou pagando para usufruir do serviço, e eles estão ali para ganhar dinheiro.

Mas quando a propaganda fica no caminho do conteúdo, alguma coisa está errada. Se o objetivo era aumentar o número de visualizações, considero essa uma estratégia suja, há meios melhores, e o Yahoo não precisa disso.

Assim eles estão jogando contra. As pessoas vão criar uma resistência a esse modelo, e aí não tem volta.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Terça-feira, dia 5 de Fevereiro de 2008.
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Jan 21

Retirado do Flickr: http://flickr.com/photos/weyler/153724007/Uso vários softwares desenvolvidos por comunidades open-source. Mas, contrariando o que se espera desses usuários, não contribuo desenvolvendo código, ou mesmo respondendo perguntas em fóruns, apesar de muitas vezes já ter minhas próprias dúvidas solucionadas neles. Dificilmente mando um bug-report e ajudo o desenvolvedor a resolvê-lo.

Eu sou um parasita da comunidade, então? Nada disso. Minha contribuição vem de outra forma, eu divulgo os softwares open-source para quem não os conhece. Partindo do princípio que eles são desenvolvidos para serem usados, e que quanto mais usuários o programa tem, mais investirão nele e melhor ele ficará, creio que minha contribuição é tão importante quando ajudar na produção.

Não fosse o papel de pessoas como eu, dificilmente os Firefoxes da vida sairiam do gueto. Escrever um programa sabendo que ele será usado por muitas pessoas é um estímulo muito importante. E isso não é bom apenas para a comunidade, se eu indico um programa, é porque uso e gosto, então é provável que ele sirva para a pessoa que eu indico. Talvez para ela não seja o melhor, tudo bem, pelo menos ela conhece as alternativas e teve a oportunidade de escolher.

Confesso que não é tarefa fácil essa, de evangelizar as pessoas. Além do óbvio, mostrar porque o programa é bom, muitas vezes é preciso desmistificar coisas simples, como ser possível manter mais de um browser instalado ao mesmo tempo. Para muitos internet é sinônimo de um E azul com eclipse em volta, imagine o trabalho.

E, por mais que seja tentador fazer o contrário, é preciso basear essa campanha na verdade, então tomo o cuidado de falar os pontos fracos do programa. É verdade que nem todo site abre no Firefox, especialmente os dos bancos, ou do Conectividade Social, da Caixa Econômica. Mas a Caixa é um caso à parte, quem já teve que usar os serviços dela sabe.

E mais, Linux e Mac podem pegar vírus. É tão raro que eu nunca vi, mas sei de relatos. Acontece que eu não uso um software porque ele é divino, um pedaço de código perfeito no meio de um mar de Pearl, uso porque é bom e satisfaz minhas necessidades. Ou mesmo porque não encontrei alternativa melhor.

Entra aqui uma questão importante. Não recomendo um programa se percebo que não servirá para a pessoa, por mais que eu goste dele. É o que me diferencia de um fanboy chato. E essa linha é muito tênue, é preciso bom senso na hora de aconselhar. Caso contrário servirá aquele velho ditado: se conselho fosse bom dava-se de graça.

Para fazer jus a essa boa-vontade toda, terminarei o texto com algumas sugestões de softwares que se você não conhece, deveria experimentar:

  • GMail: O estado de arte no que se refere a webmail. O melhor da internet, sem dúvidas. Para mim substituiu o leitor de e-mails instalado, com vantagens. Mas se você é muito apegado ao seu, é possível usar o recém-lançado suporte à IMAP, com ele o GMail é off-line também.
  • Firefox: O navegador da Raposa é sensacional por si só, mas é no suporte a extensões que ele brilha em toda sua glória.
  • Pidgin: Um mensageiro instantâneo mais leve que o MSN, e sozinho suporta as redes AIM, Bonjour, Gadu-Gadu, Google Talk, Groupwise, ICQ IRC, MSN, MySpaceIM, QQ, SILC , SIMPLE, Sametime, XMPP, Yahoo!, Zephyr. Chocante, não?! Ele faz as diferenças entre as redes ficar transparente, você nem precisa mais se lembrar se tal contato está no MSN ou no GTalk. E não tem propagandas na sua interface, que é simples e funcional, do jeito que eu gosto.
  • Ubuntu: Convencer alguém a testar o Linux é um dos maiores desafios. Não porque ele seja ruim, pelo contrário, mas porque para muitos o Windows é parte do computador, nem sabem que é possível usá-lo sem ele. Como se fosse uma BIOS, ou coisa do gênero. Se você tem vontade de tentar, mas não quer abrir mão do seu Windows, e nem abrir uma partição ou comprar um HD, recomendo o Wubi. Ele instala o Ubuntu inteiro em cima do Windows, sem risco nenhum, virtualizado em nível de máquina. E é muito simples de usar.
  • Foxit: Um substituto perfeito ao trambolho engordurado que se tornou o Adobe Reader (sorry, Adobe).

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 21 de Janeiro de 2008.

Jan 17

Retirado do Flickr: http://www.flickr.com/photos/framedview/1536240925/Há uma notícia que é repetida com freqüência na mídia. Você já assitiu essa matéria, um sujeito diz ter comprado pela internet e o produto nunca chegou, a empresa era fantasma. Então reclama da falta de garantias da venda on-line. Depois aparece um “especialista” dizendo o óbvio: compre apenas de sites confiáveis, não forneça sua senha a papagaios, yada, yada, yada.A princípio não há nada de mais nesse tipo de reportagem, é só mais uma matéria fria. Tal qual a “está nevando em São Joaquim”, quando começa o inverno (agora não mais, viva o aquecimento global!), ou o “políticos aumentam seus salários em 300%”, ou ainda o “esse vai ser o ano do linux”. O típico tapa-buraco para um dia em que nada realmente interessante aconteceu.

Acontece que esse buzz cria uma resistência ao modelo de vendas on-line. Especialmente nos consumidores menos informados, que são a maioria. Não que impeça o segmento de crescer vertiginosamente, mas certamente diminui a velocidade do progresso.

E isso não é ruim apenas para as empresas, os consumidores é que mais saem perdendo. Eles deixam de aproveitar o conforto de não ter que sair de casa e enfrentar o trânsito, e ainda podem comparar os preços em serviços como o Bondfaro e Buscapé, para evitar a raiva de encontrar o mesmo produto mais barato na vitrine da concorrência um dia depois da compra. Além disso, é comum a mercadoria ter preço melhor na internet do que nas lojas físicas.

Lógico que os riscos existem, mas comprar on-line não é mais inseguro que sair na rua. Basta usar o bom senso, se você não faria negócio com qualquer vendedor, porque faria em quaquer site? Na maior parte das vezes uma simples pesquisa pela reputação da empresa já é suficiente para salvar o consumidor de um golpe.

Compro pela internet há muito tempo. Inclusive pelo Mercado Livre, que muitos dizem ser inseguro. Confesso que fiquei com medo na primeira vez, mas foi infundado, apenas um reflexo dessa campanha do medo. Nunca fui lesado, apenas tomando o cuidado de checar as qualificações dadas pelos outros usuários ao vendedor.

É verdade que existem alguns produtos para os quais o modelo de vendas pela intenet não faz sentido. Mas a tendência é substituir lojas físicas pela web, e empresas do porte da Blockbuster serem vendidas a outras como a Americanas.com é sintomático.

Portanto, sinto muito, jornalistas. Podem devolver o dinheiro dos lobbistas, porque o terrorismo não vai funcionar. Depois que o sujeito faz a primeira compra pela internet, ele vê que era tudo mentira e não tornará a sair de casa gastar sola de sapato para fazer compras.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 17 de Janeiro de 2008.
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Jan 10

Retirado do Flickr: http://flickr.com/photos/fesassi/286099437/Quem me conhece sabe que passei o ano passado concentrado no vestibular. Com isso não só estudei as matérias que são pedidas, mas passei a conhecer a natureza desse teste. Hoje acabei a última prova, da última universidade que tentei. Terminada a maratona, agora é hora de refletir sobre tudo que passei.

Para começar, esse rito de passagem é muito criticado, acusam de ser um método injusto, discriminatório. Eu não poderia discordar mais. Talvez pudesse haver uma forma mais sofisticada de avaliar os alunos, de repente entrevistando-os um a um, por exemplo. Mas essas práticas demandariam tempo e investimentos absurdos, que tornam toda a operação inviável. O vestibular é o melhor jeito de escolher os candidatos que estão aptos à entrar na universidade.

Fato é que o vestibular é uma prova meritocrática. O estudante deve ser bom o suficiente para merecer uma vaga, simples assim. Não apenas bom no sentido de conhecer os conteúdos pedidos, mas também de saber gerenciar o tempo, ser maduro, crítico, até mesmo pontual, para chegar no local de prova no horário. Por isso não tenho dó dos candidatos que chegam um minuto depois dos portões fecharem, eles ficam com cara de mamão numa reportagem que todo ano se repete, e eu acho graça.

Idéias como a avaliação do histórico escolar são problemáticas porque falham em apontar quem é melhor aluno. É notório que são as piores escolas que dão as melhores notas. Políticas de ações afirmativas e cotas são igualmente deturbações de avaliação. Se o Estado se preocupasse realmente com a educação dos favorecidos por esses programas investiria em educação básica, em vez de remendar o estrago num estágio avançado da vida acadêmica do estudante. Um caso clássico de foco no problema, não na solução. No fim a situação é maquiada e, já que parece solucionada, estende-se indefinidamente. Infelizmente parece atitude para conquistar votos no grande celeiro eleitoral que as classes baixas se tornaram.

Essa sucessão de eventos forma o curioso cenário atual. Há uma completa inversão do que deveria ser ensino público e privado. Os estudantes do ensino médio de escolas privadas querem ir para as universidades federais e estuduais porque elas têm maior prestígio. Para os outros as chances de ingressar nessas instituições são menores, então por falta de opção acabam pagando pelo ensino superior.

Não há uma solução única e definitiva para o problema. Ele é muito mais complexo que pode parecer, não basta o óbvio: investir no ensino fundamental e médio. Mas se há uma certeza é de que mudar o sistema do vestibular não é uma alternativa.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 10 de Janeiro de 2008.
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