Jun 09

Pela data do texto anterior a este você pode reparar que o blog não tem sido atualizado com a freqüência que merece. E este é um post para encerrar de vez minhas atividades de escritor por aqui. The dream is over.

Não estou conseguindo manter a produção como quero, e como me nego a fazer qualquer coisa. Os arquivos ficaram no ar para lembrar meu tento nessa arte.

Mas talvez um dia eu volte. Nunca é tarde para a ressurreição.

Obrigado a todos que leram e comentaram. Nos vemos por aí.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 9 de Junho de 2008.

Abr 05

Todos sabemos que ocorrem muitos acidentes provocados por excesso de álcool. O otário se acha o super-homem e sai dirigindo bêbado para morrer, ou pior, matar. É um problema sério, para tentar amenizá-lo, entrou em vigor uma lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em estabelecimentos nas margens de rodovias federais.

Não vai funcionar.

Talvez contenha um pouco o número de acidentes, mas apenas por pouco tempo e longe do resultado esperado por quem defendeu a medida. Primeiro, porque eu conheço como funcionam essas coisas: não vai demorar para surgir um mercado negro de álcool nas rodovias. É impraticável controlar completamente o comércio ilegal, por maior que sejam os esforços nesse sentido. Então, mesmo proibida, qualquer tipo de droga pode ser facilmente comprada. Dessa forma, a restrição não é apenas ridícula, é perigosa: permite que surja e se fortaleça o crime organizado.

E vou ser justo, isso não é problema da mentalidade burra do brasileiro, faz parte da natureza humana. Nos Estados Unidos, nunca se consumiu tanta bebida alcoólica quanto na época da Lei Seca. A proibição parece ter efeito contrário do que se espera, torna o consumo ainda mais atraente. E de quebra contribuiu para a criação máfia.

No caso da lei que entrou em vigor, a situação é ainda mais imbecil. Como se, para evitar a caspa, o melhor fosse cortar a cabeça fora de uma vez. E meu ponto não é apenas a legalização das drogas, isso é só um aspecto da minha defesa: probições em geral são ridículas. É preciso evitá-las ao máximo, até o ponto em que se torna inevitável.

Pode me chamar de otimista, mas creio que a educação surta muito mais efeito que acabar com o direito das pessoas. Porque uma ação autoritária do Estado não tem poder se as pessoas não concordarem em segui-la. Ninguém com bom senso deixa de dirigir quando bebe porque é proibido, faz porque sabe do perigo que correria e em que colocaria as outras pessoas.

Assim, só faz sentido punir quem bebe e dirige, não a venda de bebidas em si. Pode parecer confuso, mas há um mundo de diferença. Enquanto a primeira ação diz respeito a quem faz uma grande besteira, a segunda pune igualmente a todos, como se ninguém tivesse consciência do que é certo e errado.

A autoridade, assim como o respeito, não se impõe. E nivelar todos por baixo é uma ótima forma de não conquistá-la. Ela só existe enquanto quem obedece concorda em se submeter às regras. Em último caso, porque há muito menos policiais do que civis. E as pessoas só estarão de acordo enquanto as leis não forem ridículas. Por isso, não posso condenar quem participará do comércio ilegal de bebidas que estou prevendo.

Mesmo assim, tento entender o lado do Estado. Eles têm de mostrar serviço, e essa foi a forma que encontraram. Pode ser burro, mas eu não esperava muito deles, desde o início. Quando se trata do governo, precio com moderação.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sábado, dia 5 de Abril de 2008.
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Abr 01

Se você já esteve por aqui antes, sabe que passei no vestibular. Em nome da sinceridade, devo dizer que o curso que escolhi não era dos mais concorridos, apenas oito candidatos por vaga. Mesmo assim, acho válido escrever sobre o que fiz para ser aprovado. Antes de começar, quero deixar claro que minha intenção não é criar um tratado sobre o assunto ou um manual definitivo, nem teria autoridade para isso, mas relatar minha experiência.

O item número um, mais importante do que qualquer outro, é escolher o curso. Diferente do que veio até então, ensino fundamental e médio, o nível superior é mais que um conjunto de disciplinas, é uma carreira. É verdade que se pode mudar de rumo mais tarde na vida, mas, na maior parte das vezes, o curso escolhido será sua profissão.

Por isso acho perturbador quando vejo algumas pessoas estudando para o vestibular, realmente dando seu sangue, mesmo sem ter noção de qual curso querem prestar. O melhor investimento que os cursinhos podem fazer não são as lousas eletrônicas ou apostilas caras das quais eles se gabam, mas um psicólogo vocacional.

A idéia de tentar um curso para ver se gosta, e voltar a fazer o vestibular no caso negativo soa absurda. É uma total inversão de valores, quando o ato de fazer uma universidade se torna mais importante do que realmente aprender algo por lá. Ainda assim, isso acontece com freqüência assustadora. Parece que estão tentando entrar na universidade para continuar sob os cuidados dos pais, como se quisessem fugir do mundo real. Eles se tornam estudantes profissionais, depois de anos de trabalho, ainda não chegaram em lugar algum.

Comigo, foi diferente. Decidi o que queria fazer da vida, então passei a analisar os caminhos que me levariam onde quero. Meus pais me ajudaram muito nessa etapa. Com isso resolvi prestar o vestibular, mas, a essa altura, já sabia qual curso queria. Essa é a ordem natural dos fatos.

Alguns podem argumentar que, em muitos casos, ao terminar o ensino médio, a pessoa ainda é jovem demais para tomar uma decisão tão importante sobre seu futuro. Concordo com isso, só não vejo como desculpa para se aventurar em uma carreira escolhida à uni-duni-duni-tê. Não há nada de errado em passar alguns anos trabalhando para descobrir qual sua verdadeira vocação.

Pelo contrário, saber o que eu queria foi a melhor motivação para estudar e, acredite, foi necessária muita motivação. Isso me leva ao segundo tópico do assunto, a parte onde o sujeito estuda até não conseguir mais focar os olhos nas letrinhas escritas no livro.

Para início de conversa, não fiz nenhum cursinho. Nem meu ensino médio tinha foco no vestibular. Onde estudei, a prioridade são os cursos técnicos, de forma que a parte ão de terceirão, ficou em segundo plano.

Optei pela abordagem mais pragmática. Fiz vestibulares dos anos anteriores das universidades que tentaria, percebi minhas dificuldades, estabeleci prioridades e arrumei livros. Não poderia ser mais simples que isso, e foi eficaz. Não perdi tempo vendo o que já dominava, por outro lado, isso me exigiu maior comprometimento.

Não recomendo meu método para qualquer um. É preciso um quê de autodidata, afinal é mais prático fazer um cursinho e seguir o cronograma preparado por ele. Mas que fique claro: essa não é a única alternativa para alcançar o sucesso, como às vezes pode parecer.

Por último, e não menos importante, na hora da prova, esteja tranqüilo. Sempre treine como se fosse jogo e jogue como se fosse treino. De fato, eu levei mais a sério os simulados do que as provas de verdade. Se você sabe que ficará nervoso, aprenda uma técnica de respiração relaxante, a arte zen de meditação, faça sexo antes, o que funcionar melhor. É tão óbvio que não deveria precisar dizer isso, mas, vendo a quantidade de gente apreensiva com que tive a oportunidade de dividir a sala durante o vestibular, posso dizer que é um erro comum.

Depois, prepare-se para ser coberto de tinta e ter o cabelo cortado. E mesmo que você não passe, não se desespere, lembre-se você começou isso tudo porque tinha uma carreira em mente. Há outras formas de trabalhar para chegar onde você quer, gaste o ano seguinte fazendo isso enquanto estuda.

A sugestão da pauta veio da Fabiane e agradeço a ela.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Terça-feira, dia 1 de Abril de 2008.
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Mar 29

Há momentos em que somente palavras escritas não bastam. Esse é um deles. Aperte o play.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sábado, dia 29 de Março de 2008.
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Mar 28

Quando discuto sobre religião, sempre aparece alguém dizendo que devemos simplesmente respeitar as crenças dos outros. A filosofia simplista do viva e deixe viver. Para esse tipo de gente, a crença pessoal dos outros não nos afeta, acham que forço o argumento quando digo que ela é preocupação de todos.

Leiam esse texto.

Aos olhos do tipo de gente que descrevi no primeiro parágrafo, por mais que concordem que a atitude dos pais tenha sido completamente errada, devemos respeitar sua decisão, afinal, religião não se discute. Eles suportam a decisão dos pais em MATAR a própria filha com toda crueldade. Não consigo entender essa defesa, parece que vem de pessoas que perderam o coração.

Devo dizer: se você acha mesmo que a crença pessoal alheia não lhe diz respeito, você é CÚMPLICE do assassinato. Então, não consigo entender que espécie de amor ao próximo é essa que vocês dizem defender. Eu, que sou ateu, pareço ter mais sentimentos que vocês, religiosos sangue de barata.

A idéia de que devemos simplesmente respeitar as crenças está perigosamente errada. Mas não é difícil entender porque ela é tão difundida: a base de qualquer religião é que a fé deve ser cega, e que quem discute sobre ela está fazendo algo de errado, só nos cabe respeitar. É comum crianças ouvirem isso desde muito cedo, de forma que é possível ela considerar isso certo.

Aprendemos por repetição e imitação, sem necessariamente fazer juízo de valores. Ainda mais quando somos pequenos e devemos obedecer aos outros. Espero que esteja claro, não defendo a desobediência, mas não há razões para crer que o raciocínio crítico seja diferente de todo o resto, ele também deve ser ensinado, e muitas vezes não é. Pessoas que aprenderam a questionar percebem que simplesmente respeitar a religião dos outros não é correto. Devemos discutir o assunto, sim.

Senão, criam-se pessoas cegas, como os pais da garota e os religiosos que os defendem. Em outras palavras, criam-se homicidas.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 28 de Março de 2008.
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Mar 27

Lembro de, há algum tempo, estar procurando algo para assistir na tevê e, ao passar pela HBO, encontrar um espetáculo diferente de tudo que conhecia. Era apenas uma mulher no palco falando, com um microfone nas mãos; sem cenário, apenas um banco em que se encontrava uma garrafa com água. Na sua frente, milhares de pessoas ocupavam vários andares de platéia. Todos rindo.

Mais tarde, descobri se tratar da Ellen DeGeneres, o show se chama Here & Now, e o que ela faz tem nome: Stand-up Comedy. É um gênero de humor em que o comediante se apresenta sozinho, sem recurso algum além de um microfone, tanto que também é conhecido por humor de cara limpa. Sendo assim, o destaque está todo no texto e no ator. Achei aquilo fabuloso.

É o que o Jô Soares e o David Letterman fazem em pequenos blocos, mas, nesse caso, com mais de uma hora de duração. Acredito que seja a forma mais direta de teatro, não há personagens ou enredo, e o objetivo é muito claro, fazer as pessoas rirem. Para isso, normalmente o texto trata de coisas cotidianas, a graça vem da reflexão.

Essa é outra característica que me atrai. O humor é inteligente porque não subestima a platéia, e ela é muito mais participativa do que normalmente seria. No fim, as pessoas estão mais rindo de si mesmas do que da peça. Saem todos os adereços e aparatos, as tortas na cara e narizes de palhaço, e o que sobra é nossa vida. Afinal, há algo mais hilário que ela?

Não pense, entretanto, que é fácil fazer esse tipo de comédia. Há sempre um texto preparado, que leva anos para ser desenvolvido. Normalmente, não se usam piadas prontas, dessas de salão, e é comum que o ator redija seu próprio material. Além disso, ele precisa saber improvisar muito bem para se adaptar ao público. Especialmente na hora de lidar com os hecklers, como são chamados os sujeitos que berram besteiras ou insultos no meio da apresentação.

Por conta disso, mesmo que seja uma apresentação repetida, consigo me divertir toda vez que assisto um show de stand-up comedy. Nem que seja só por invejar a capacidade desses atores de se expressar bem. Alguns acreditam que seja a modalidade mais complicada de atuação, tamanha a dificuldade de dominar uma audiência tão participativa.

Como o nome já entrega, o stand-up comedy não surgiu no Brasil. Mas está começando a se popularizar por aqui, o Rafinha Bastos faz sucesso no Youtube e excursiona o país com seu A arte do insulto, que gostaria de assistir. Espero que, em breve, tenhamos um Jerry Seinfield tupiniquim.

Enquanto isso não acontece, aproveite para conhecer esse gênero. Afinal, o humor é a mais nobre manifestação da inteligência, e sua essência é o stand-up comedy.

Referência

Atualização: Obrigado, Vanderlei, meu pai, pelas correções nesse texto e em vários outros.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Quinta-feira, dia 27 de Março de 2008.
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Mar 21

http://www.flickr.com/photos/loungerie/1525574884/

Quando escrevi que não abandonaria meu senso de humor, não foi necessariamente a esse tipo de humor que eu me referia. Mas não resisti à piada, ela é deliciosamente herética para eu deixar passar.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 21 de Março de 2008.
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Mar 14

Sempre ouvi dizerem que o mundo real era cruel. A vida é bela, mas o mundo é cruel. Realmente, justiça não parece ser o forte da humanidade. Ainda assim, é possível ser feliz. Quanto mais eu cresço, mais vou deixando para trás esse pensamento de que as coisas vão indo de mal a pior. Não é um otimismo cego da minha parte, nem haveria espaço para isso, mas auto-confiança, acredito que eu consiga dar certo apesar das circunstâncias. Não coloco minha mão no fogo pela espécie, mas também não vou deixar que isso contamine meu mundo particular.

Meu último e mais significativo passo em direção ao mundo real foi ter saído da casa de meus pais. Essa talvez tenha sido a maior mudança pela qual já passei, e não arruinar tudo daqui para frente só depende de mim. Ainda falta muito para poder dizer que encaro o mundo real, então é possível que quebre a cara e mude de idéia no futuro, mas torço para que isso não aconteça. Meu maior medo é fracassar, ver que perdi minha aposta em mim mesmo. Mas esse medo não me paralisa, e sim motiva.

A próxima e derradeira etapa é me emancipar financeiramente. Porque ainda dependo completamente dos meus pais para garantir minha renda, sequer teria tempo de trabalhar se quisesse. Sou muito grato por isso e por tudo mais que eles fizeram e fazem por mim, mas sei que o apoio monetário acabará um dia. E então vou estar definitivamente jogado no mundo real, por enquanto, só posso falar da experiência de morar sozinho.

A primeira barreira encontrada é a prática. Não tinha experiência com afazeres domésticos, talvez tivesse sido melhor treinar antes, mas não encontrei tanta dificuldade quanto imaginava. Lavar, passar, limpar, cozinhar, etc, não é tão complicado assim, não é divertido, lógico, mas pensei que fosse pior. A parte realmente curiosa é que essa mudança de hábitos alterou meu comportamento. Certo dia, quando começou a chover, a primeira coisa que pensei foi “ufa! Ainda bem que tirei a roupa do varal pela manhã”. E é assim com todo mundo, porque ouvi um comentário de um sujeito que estuda comigo: -Ah, eu queria ir no mercado.

Confesso: virei dona-de-casa. E, de repente, aquele pensamento do mundo cruel vai se desvanecendo. Óbvio que a vida é mais que passar roupa, não sou tão ingênuo. Meu ponto é que, se eu consegui tirar aquela mancha da minha toalha, eu posso fazer qualquer coisa, então tudo pode dar certo no final. Vai ver o John Mayer estava mesmo certo na letra de No Such Thing:

“I just found out there’s no such thing as the real world
just to lie you’ve got to rise above”

O mundo não me dá mais tanto medo. E com essa experiência estou aprendendo outra coisa: mudar o ambiente, os hábitos e o comportamento não vai mudar o que eu sou. Se eu quiser mudança preciso me esforçar, ela não virá passivamente. Isso é algo que eu não esperava. Pensava que quando fosse morar sozinho, iria começar uma vida nova, seria quem eu quisesse. Talvez passasse a ser arroz de festa, a beber, a curtir as coisas de forma inconseqüente. Apesar de saber que isso é sinal de imaturidade, sentia um certo remorso de não ter feito, como se faltasse um pedaço da minha adolescência, não tivesse vivido tudo que deveria.

Como eu disse, não funcionou, continuo sendo o mesmo Leandro que acha essa curtição etílica perigosa uma grande bobagem. Mas agora estou conformado, não nasci para ser party boy, posso partir feliz para outra. O saldo é positivo, economizei dinheiro, tempo e uma adolescência brigando com meus pais. Tomara que eu não me arrependa e queira retomar o retroativo no futuro, mas acho muito difícil isso acontecer.

Até agora, está sendo ótimo. Então, que venha o mundo real. Nunca estive tão pronto.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Sexta-feira, dia 14 de Março de 2008.
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Mar 07

Leandro, coberto de tinta, areia e molhado, depois de estar por mais de uma hora no pedágio do trote, cansado, voltando para casa. Passa um casal de mãos dadas, ambos vestindo camisetas da universidade. Garota se dirige ao Leandro:

-E aí, bixo do quê?

- Ciências da computação.

Sonoro muxoxo vindo da garota. Leandro pergunta:

- Por que, isso é ruim?

-É, vai continuar virgem para o resto da vida.

Casal vai embora. Fim da cena.

Ah, é. Isso.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 7 de Março de 2008.
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Mar 06

Por uma questão de dias, não sou obrigado a votar esse ano. Não terei completado dezoito até o primeiro turno, mas, ainda assim, tirei meu título de eleitor. Um pouco porque não confiei nessa tecnicalidade, outro pouco porque assim resolvi esse impasse de vez, já que daqui dois anos será obrigatório para mim. É meio estranho o Estado me considerar maduro o suficiente para decidir os futuros governantes mas não para dirigir um carro. Sei que é porque não poderia responder por um crime cometido por mim no trânsito, o que não torna menos estranho.

Minha primeira crítica é sobre a obrigatoriedade do voto. Democracia é ótimo, ela deve ser defendida acima de tudo, concordo com isso. Uma das suas instituições fundamentais é o voto, também não há do que reclamar nisso. Porém, se entendi direito, uma das razões de ela ser louvável como modelo civil é justamente primar pela liberdade. Escolher seus governantes é uma expressão de liberdade, sim, mas abster-se dessa escolha também é uma opção. Por isso faz mais sentido o voto ser uma manifestação voluntária.

Só com essa atitude, a qualidade dos votos já aumentaria. Acredito que a maior parte dos analfabetos políticos não se dariam ao trabalho de votar se não fossem obrigados a isso. Se não por consciência de sua própria situação, por falta de vontade. Há de se considerar o problema da compra de votos, eles poderiam se tornar ainda mais decisivos quando diminui o número de pessoas que votam. Chame de otimismo, mas acredito que o aumento da proporção de votos conscientes entre os não-comprados seria suficiente para desequilibrar a balança para o melhor lado.

Alguns podem alegar que o voto facultativo incentivaria a alienação política. Discordo desse argumento, tirar a obrigatoriedade diminui a resistência, torna a eleição mais atraente. Essa reação varia entre as pessoas, mas acredito que a massa crítica de pessoas bem informadas sentiria isso. Dessa forma, outa vez, a qualidade dos votos aumenta. O que incentivo não é segregação, é dar a possibilidade de não fazer parte do processo àqueles que não querem.

Nesse clima de manifestação política, não posso deixar de comentar minhas impressões sobre uma propaganda institucional passando na tevê. Ela se dirige aos eleitores dos candidatos vencedores das eleições passadas e fala da importância de acompanhar o desempenhos desses políticos. Assim fica fácil, voto em quem tenho certeza de que irá perder e estou livre da preocupação política por quatro anos (ou oito, depende do cargo). E ainda com o privilégio de reclamar dizendo:

- Pois é, eu não votei nele, você sim. Então nem vem reclamar.

Não há argumento mais imbecil que esse, mas já ouvi mais de uma vez. Acompanhar e cobrar os políticos é obrigação de todos, não só dos seus eleitores. Óbvio que falar isso é mais fácil que fazer, mas é a verdade, e ela tem que ser dita.

No final da propaganda há outra frase que destaco, mas com essa eu concordo, por mais paternalista que seja: “O Brasil é tão bom quanto o voto que você colocou na urna”. É cruel, mas é verdade. Isso me leva à defesa de uma atitude que teria tomado em algumas eleições no passado, se pudesse, votar nulo. Diferente do que afirmam, o voto nulo não é fugir da escolha, esse é o voto em branco. Votar em branco é deixar sua cédula para outro preencher (agora não é mais cédula, mas você entendeu).

O voto nulo é uma manifestação política legítima, sim. E valiosa. É dizer que nenhuma das alternativas é boa o suficiente e você não está disposto a nivelar seu país por baixo escolhendo o menos pior ou o rouba mas faz. Dificilmente alguma eleição chegará a computar o número de votos nulos suficientes para obrigar um novo turno, com outros candidatos, como prevê a lei. Mas não deixa de ser um protesto válido.

O Brasil é tão bom quanto meu voto, então vou votar bem. Nem que isso seja admitir que não há escolha alguma.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 6 de Março de 2008.
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