Mar 30

Antes de começar minha crítica, quero deixar claro que reconheço a importância da polícia. Não sou daqueles anarquistas que defendem o caos. Um sistema que se baseie no bom senso das pessoas seria mesmo ótimo, mas é impraticável, infelizmente. Só funciona na mentalidade pequena desses bolcheviques de mesa de bar. Sendo assim, podemos partir desse ponto: todos precisamos de polícia.

Aliás, não é difícil perceber que estou certo quanto a isso. Uma das poucas experiências de sociedade sem polícia acabou muito mal. Foi em uma cidade do Canadá em que a corporação entrou em greve. Estamos tratando de um país de primeiro mundo, civilizado, teoricamente a melhor amostra de população para tentar estabelecer a anarquia. Ainda assim, nessa situação, as pessoas agiram como selvagens, o número de crimes cometidos aumentou consideravelmente.

Mesmo que seja indesejável, a polícia é absolutamente necessária. Dessa forma, espera-se que ela seja uma das instituições mais sólidas e respeitáveis. Como justificar, então, a cartilha feita pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, órgão do governo federal, com o sugestivo título “A polícia me parou. E agora?“? Nela, há recomendações para evitar abuso policial, entre elas: não tocar o policial, não ameaçá-lo, não fazer movimentos bruscos…

Agora, você deve estar se perguntando: “Onde foi que eu vi isso antes?”. Eu respondo: essas são exatamente as mesmas recomendações dadas para agir quando abordado por um criminoso! E faz sentido, às vezes estamos na posição de tratar quem deveria nos proteger da mesma forma que tratamos quem nos ameaça. Se até o governo federal admite isso, há algo de muito errado.

Não vou generalizar, há alguns policiais que não se enquadram nessa crítica, eles fazem jus a missão de proteger. Mas, pelo que percebo, esses são minoria. Na maior parte das vezes, somos agredidos. E isso vai muito além de tapas e pontapés. Em uma viagem de carro pelo interior do Paraná encontramos um policial rodoviário em um ponto estratégico da pista no qual a faixa se tornava contínua. Lá, ele parava os veículos com a intenção explícita de ganhar propina.

Era perceptível que ele não tinha intenção de multar ou orientar o motorista, ficou jogando conversa fora e sequer estava com um bloco de multas. Praticamente um mendigo de farda. E esse caso está longe de ser exceção, algumas pessoas têm até o hábito de reservar dinheiro para os guardas na estrada, quando vão viajar. A corrupção alastrada dessa forma é, para mim, uma forma de violência.

O mérito dessa discussão não é a quem devemos atribuir a culpa, policiais que recebem propina ou pessoas que aceitam isso e pagam. Meu objetivo é encontrar a solução. E ela é a mudança de mentalidade por parte dos envolvidos. Quando encontramos policiais como os citados, o certo a fazer é não pagar.

Isso envolve alterar a forma com que encaramos o sistema. Para a maioria das pessoas, corrupção é assunto de políticos, somente eles são responsáveis por esse mal. Posição conveniente essa de atribuir os problemas para algo que não podemos controlar. Mas é completamente errado.

Somente os casos de corrupção que envolvem políticos viram escândalos porque eles estão em maior evidência. Porém o mensalão e a caixinha do guarda são igualmente ruins, se não em proporção, com certeza em termos éticos. Ambos vêm do mesmo lugar, então para resolver a questão é preciso mudar o pensamento de cada um.

Por isso não tenho esperança de melhoria no futuro próximo. Talvez a única saída que reste seja mesmo assumir a sujeira toda e institucionalizar a corrupção. Quem sabe fazer como a empresa israelense que pediu dedução no Imposto de Renda pelos gastos com propina? Ela se justificou afirmando que esse tipo de gasto faz parte da tradição do país.

É ridículo e vergonhoso? Sim. Mas é nossa realidade.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Domingo, dia 30 de Março de 2008.
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Mar 19

Estava eu apreciando o belo produto tipo exportação que é a teledramaturgia nacional, quando ouço o comentário:

-Só passa sexo, violência e valores desvirtuados nessas novelas. Que belo exemplo estão dando para as pessoas.

Isso, para mim, coloca em questão todo o sistema de produção de entretenimento. Será mesmo que é obrigação da tevê servir de exemplo? Mesmo que não seja, seria correto, para não dizer ético, transmitir programação do tipo que serviu de inspiração à crítica acima?

Vamos partir de dois princípios: esse tipo de conteúdo tem como objetivo atingir o maior público possível; e ele não tem obrigação de ensinar, mas divertir. O ideal talvez fosse aliar educação e entretenimento, mas essa fórmula fatalmente se torna insípida. E, em princípio, não há problema algum nisso. Afinal, cabe aos pais a obrigação de ensinar os filhos, querer transferí-la para a tevê é inocente e preguiçoso.

Mas, nessa queda ladeira abaixo em termos de qualidade, chegamos no cenário atual em que poucas atrações são diferentes de um lixo completo. A reflexão nos leva ao questionamento: as pessoas procuram conteúdo rasteiro, os produtores lhes dão, qual a direção dessa relação causal? A apelação de boa parte da programação é culpa dos espectadores ou de quem está do outro lado da tela?

É fácil resolver isso se lembrarmos que o objetivo da tevê é ser assistida pela maior quantidade possível de pessoas. A qualidade de uma novela é reflexo de seu público, não ele é conseqüência dela, simplesmente porque sua influência não chega a ser tão grande a ponto de afetar o comportamento.

Pode parecer que estou errado, se observarmos o grande poder de persuasão das novelas. Mas ele surge da predisposição do público em aceitar, as pessoas que criam a demanda, então são mais senhoras de si que os ditos grandes interessados por trás dessa suposta manipulação. É uma curiosa manifestação do poder das massas, que podem influenciar quem as influencia.

Não estou vivendo em outro mundo, como pode parecer à primeira vista. A idéia que defendo só não é tão clara a ponto de ser percebida por todos porque a manipulação do público no conteúdo gerado não é voluntária. Mesmo assim, é possível reescrever a crítica que abriu o texto, já que a novela é mais um diagnóstico que um agente, como insistem alguns:

-Só passa sexo, violência e valores desvirtuados nessas novelas. A que ponto chegou o povo.

É normal empurrar a culpa do emburrecimento coletivo para fatores grandes e fora do nosso controle, como a produção de conteúdo na tevê. Mas não é simples assim, essa abordagem é defensiva demais. A raiz do problema é a educação que as pessoas estão recebendo, ela forma o indivíduo que vai querer assitir lixo. As emissoras apenas farão sua parte, dando-lhes lixo.

O cenário sempre fica mais tenebroso quando trazemos o problema para perto de nós mesmos, mas, nesse caso, é o correto a fazer. E, afinal, ninguém disse que a inteligência coletiva necessariamente era inteligente.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quarta-feira, dia 19 de Março de 2008.
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Mar 18

O título em latim e com referência a um filósofo é uma forma de estimular o pensamento. Uma manifestação da forma se misturando ao conteúdo, como você verá ao longo do texto. Não tenho certeza da gramática da frase, é que minha fluência em linguas mortas está meio enferrujada. Acho que a intenção já vale, além de que dá um efeito estético interessante.

Há uma curiosa corrente de pensamento que defende a ignorância voluntária como chave da felicidade. Uma espécie de filosofia de vida que prega justamente a abstinência de filosofias. Certamente, é uma idéia atraente. A princípio, desconhecer pode ser anestésico para nossa mente nem sempre disposta a lidar com a realidade cruel. O Inagaki escreveu uma resenha de um livro deveras provocativo sobre o assunto.

A dúvida paira no ar: devemos perseguir o conhecimento, ou será melhor apreciar a situação de ignorar? É fato que algumas verdades podem machucar, de forma que parecem fazer mais mal do que bem. Quando explícitas, elas ferem nosso ego, nossa auto-estima, nossa vontade de cantar uma bela canção.

Ainda assim, acredito eu, é melhor que sejam ditas. A ignorância consentida é o ópio dos fracos. Como com a droga, a sensação de felicidade é falsa, tem prazo de validade. Quando ele vence, voltam os questionamentos e dúvidas de forma ainda mais avassaladora. A situação se configura pior do que no início.

O que defendo não é passar o tempo todo preocupado com o existencialismo. Mas o mínimo que espero é coragem para encarar essas perguntas de frente, sem fugir alegando preferir desconhecer. Defender a ignorância voluntária é discurso de quem quer manipular as pessoas. Afinal, massa de manobra precisa ser dócil.

Nós estamos longe de ter todas as respostas, nem temos tal pretensão. Tenhamos a franqueza de admitir nossa ignorância, mas também não vamos exaltá-la. Isso é essencial,  não podemos confundir humildade com conformismo.

Meu argumento ganha força quando lembro que não há ignorância seletiva. Se decidimos ter essa postura de abraçar o desconhecimento como forma de levar a vida, temos de fazer isso por completo em todos os setores. Porque a própria idéia de escolha não cabe, uma vez que pressupõe saber as alternativas e opções.

Fazendo dessa forma, deixamos aberta uma brecha perigosa: podemos facilmente ser explorados e reprimidos. Como na letra de Linguagem do Morro, do Chico:

“Mas como não quer reconhecer
É ele escravo sem ser
De qualquer usurário”

Se o sujeito ignora a tal ponto de não saber que está sendo explorado, não haveria problema algum. Seria possível manter a felicidade mesmo nas condições mais insalubres. Mas sabemos que não é o caso, essa alternativa é completa ficção.

Sendo assim, não vamos perder nosso sono com questões irrelevantes. Ou mesmo passar tempo demais com as relevantes. Mas não adotemos uma postura completamente passiva perante elas. Reparemos que, na maior parte dos casos, quem defende essa postura think-free não faz o que diz.

PS: Esse é meu primeiro artigo com um link para o Pensar Enlouquece, acho que faz sentido celebrar isso com um PS. Questão de coerência. :D

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Terça-feira, dia 18 de Março de 2008.
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Mar 14

Sempre ouvi dizerem que o mundo real era cruel. A vida é bela, mas o mundo é cruel. Realmente, justiça não parece ser o forte da humanidade. Ainda assim, é possível ser feliz. Quanto mais eu cresço, mais vou deixando para trás esse pensamento de que as coisas vão indo de mal a pior. Não é um otimismo cego da minha parte, nem haveria espaço para isso, mas auto-confiança, acredito que eu consiga dar certo apesar das circunstâncias. Não coloco minha mão no fogo pela espécie, mas também não vou deixar que isso contamine meu mundo particular.

Meu último e mais significativo passo em direção ao mundo real foi ter saído da casa de meus pais. Essa talvez tenha sido a maior mudança pela qual já passei, e não arruinar tudo daqui para frente só depende de mim. Ainda falta muito para poder dizer que encaro o mundo real, então é possível que quebre a cara e mude de idéia no futuro, mas torço para que isso não aconteça. Meu maior medo é fracassar, ver que perdi minha aposta em mim mesmo. Mas esse medo não me paralisa, e sim motiva.

A próxima e derradeira etapa é me emancipar financeiramente. Porque ainda dependo completamente dos meus pais para garantir minha renda, sequer teria tempo de trabalhar se quisesse. Sou muito grato por isso e por tudo mais que eles fizeram e fazem por mim, mas sei que o apoio monetário acabará um dia. E então vou estar definitivamente jogado no mundo real, por enquanto, só posso falar da experiência de morar sozinho.

A primeira barreira encontrada é a prática. Não tinha experiência com afazeres domésticos, talvez tivesse sido melhor treinar antes, mas não encontrei tanta dificuldade quanto imaginava. Lavar, passar, limpar, cozinhar, etc, não é tão complicado assim, não é divertido, lógico, mas pensei que fosse pior. A parte realmente curiosa é que essa mudança de hábitos alterou meu comportamento. Certo dia, quando começou a chover, a primeira coisa que pensei foi “ufa! Ainda bem que tirei a roupa do varal pela manhã”. E é assim com todo mundo, porque ouvi um comentário de um sujeito que estuda comigo: -Ah, eu queria ir no mercado.

Confesso: virei dona-de-casa. E, de repente, aquele pensamento do mundo cruel vai se desvanecendo. Óbvio que a vida é mais que passar roupa, não sou tão ingênuo. Meu ponto é que, se eu consegui tirar aquela mancha da minha toalha, eu posso fazer qualquer coisa, então tudo pode dar certo no final. Vai ver o John Mayer estava mesmo certo na letra de No Such Thing:

“I just found out there’s no such thing as the real world
just to lie you’ve got to rise above”

O mundo não me dá mais tanto medo. E com essa experiência estou aprendendo outra coisa: mudar o ambiente, os hábitos e o comportamento não vai mudar o que eu sou. Se eu quiser mudança preciso me esforçar, ela não virá passivamente. Isso é algo que eu não esperava. Pensava que quando fosse morar sozinho, iria começar uma vida nova, seria quem eu quisesse. Talvez passasse a ser arroz de festa, a beber, a curtir as coisas de forma inconseqüente. Apesar de saber que isso é sinal de imaturidade, sentia um certo remorso de não ter feito, como se faltasse um pedaço da minha adolescência, não tivesse vivido tudo que deveria.

Como eu disse, não funcionou, continuo sendo o mesmo Leandro que acha essa curtição etílica perigosa uma grande bobagem. Mas agora estou conformado, não nasci para ser party boy, posso partir feliz para outra. O saldo é positivo, economizei dinheiro, tempo e uma adolescência brigando com meus pais. Tomara que eu não me arrependa e queira retomar o retroativo no futuro, mas acho muito difícil isso acontecer.

Até agora, está sendo ótimo. Então, que venha o mundo real. Nunca estive tão pronto.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Sexta-feira, dia 14 de Março de 2008.
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Mar 13

Não sou nenhum openxiita (nem poderia, estou escrevendo este texto no Word, seria um contrasenso), mas simpatizo com o modelo open source. Ele já é adotado em muitos projetos sérios, por empresas que não têm como objetivo defender a ideologia de conhecimento livre para todos, e sim ganhar dinheiro. O que eu vejo como uma prova de que o open source é um modelo de negócio viável e atraente. No entanto, por mais contraditório que possa parecer, a principal barreira que o impede de ganhar ainda mais mercado é justamente o fã que faz propaganda dele.

Não me refiro a qualquer divulgador, alguns são muito competentes e, nesse caso, a contribuição é muito valiosa. Estou falando daquele tipo de gente que lota as listas de discussão Mico$oft $ucks e se acha o máximo porque só usa softwares que o Stallman aprovaria. As atitudes dessas pessoas são contrapropaganda. Veja, por exemplo, o caso da Novell, que há algum tempo tornou a Microsoft sua parceira. Quando ouviram a notícia, muitos não tardaram a taxar a empresa de vendida, acusaram-na de ter se entregado ao lado azul da força.

O open source não precisa de defensores como esses, talvez seja melhor sem eles. Não é preciso muito para perceber que fazer parcerias é o único jeito de se manter no mercado, ainda mais em tempos de globalização. Se, mesmo assim, não parece uma boa idéia associar-se com algumas empresas, gosto de recordar uma frase que não lembro onde ouvi, mas acredito que possa ser atribuída à máfia italiana “mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda”.

Aceitar as diferenças e se aproveitar delas é sinal de maturidade. Talvez falte um pouco disso nos fãs inconvenientes do open source, até porque boa parte deles não tem mais do que quatorze anos de idade. É uma pena que essas pessoas contaminem a imagem do modelo, porque ele não é acompanhado de uma ideologia, como eles querem que pareça.

Adam Werbach é um exemplo de como isso funciona no mundo real, e não é ligado ao open source, sequer à informática, mas ao ambientalismo. Por muito tempo Werbach fez o tipo ecochato, daqueles que fazem barulho e não são ouvidos. Até o dia em que foi trabalhar para o Wal-Mart, uma das companhias que mais polui no mundo.

Acredito que não tenha sido fácil para ele tomar essa decisão. Antes de estar no quadro de funcionários do supermercado, escreveu críticas bastante ácidas sobre a rede. Foi preciso uma dose de maturidade para superar o ódio e seguir em frente. De fato, passou-se um ano entre a proposta de emprego e a contratação.

Lógico que alguns de seus companheiros de causa acusaram-no de vendido, da mesma forma que fãs do open source cheios de ideologia. Mas hoje ele contribui muito mais para um planeta saudável do que nos tempos de ambientalista clássico. E ainda é respeitado no meio, é um dos seis conselheiros mundiais do Greenpeace.

Entre grandes empresas ditas rivais, vê-se a mesma coisa. Em seu keynote mais recente, Steve Jobs agradeceu e parabenizou a Microsoft pelo Office 2008 para Macs. A Apple pode ser concorrente, mas as companhias precisam umas das outras. Isso é parte do que torna o mercado tão interessante.

No fim das contas, não se consegue chegar a lugar algum sozinho. É preciso fazer associações, e é importante saber escolher os parceiros corretos. Perceber isso é o que diferencia as empresas de sucesso daquelas movidas por ideologia adolescente. Pode até ser alguém de quem não se gosta, afinal, não é nada pessoal, são business.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Quinta-feira, dia 13 de Março de 2008.
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Mar 05

Faz algum tempo desde a última vez que publiquei um texto aqui. Talvez vocês tenham pensado que desanimei, ou que morri, opção para os trágicos. Na verdade o lapso se deve à mudança de casa. Fiquei sem internet por mais de uma semana, uma experiência mais difícil do que pensei que seria. Vale dizer que, durante esse intervalo, eu não escrevi nada. Agora considero isso um erro, mesmo que não pudesse publicar, deveria manter a prática. Estou enferrujado, levando muito mais tempo para formular o texto, e chegando em um resultado que fica aquém das minhas expectativas. Todos que trabalham com a criatividade dizem que é assim, mas eu não dei ouvidos, tipo de coisa que só se aprende com a experiência negativa.

E o leitor pensa: “Perdeu preibói, não quero desculpas. Deu uma parada de escrever -’Ema, ema, ema cada um com seus problema’”. Sim, é verdade, mas acho que devia uma satisfação, até para não ficar a sensação de que acontecerá com freqüência.

Nesses dias de exílio, liguei a tevê. A aberta, porque se não tinha internet, não tinha tevê à cabo. Eis que vejo um desses programas vespertinos popularescos com a seguinte proposta: a mulher leva o marido ao programa (talvez haja dias em que façam o oposto, não sei), então a apresentadora pergunta algumas coisas pessoais, principalmente sobre o relacionamento. Enquanto responde, o sujeito é avaliado por um polígrafo, que diz se ele está falando a verdade ou mentindo.

Logicamente, não é simples e direto assim. Ficam naquele clima de suspense para manter certo mistério, e o ibope, por horas. Grande cafajestagem, é verdade, mas lembre-se de que não estão mirando nas classes do início do alfabeto. E, mesmo para quem não gosta, às vezes é tão atraente que pode manter a pessoa assistindo, já aconteceu comigo.

Pessoas com um senso crítico pouco mais apurado, apenas um pouco mesmo, percebem que é falso. É forçado demais, nota-se uma (má) atuação por parte dos participantes. De forma que não é preciso muito para chegar a mesma conclusão que eu.

Mas seria muito amadorismo da minha parte escrever um texto sobre o óbvio, repetindo o que todos já sabem. Não acrescentaria em nada, então, onde quero chegar com isso?, você talvez pergunte. Meu objetivo é uma reflexão que tive quando dei o benefício da dúvida ao programa e, considerando que fosse real, cheguei a conclusão de que não aconteceria isso com um casal saudável. Talvez esteja completamente enganado, mas acompanhe meu raciocínio.

Para iniciar, é importante deixar claro o motivo que levaria o casal ao programa. Eles estão com dificuldades no relacionamento, e querem resolver. O objetivo é a reconciliação, e supostamente os cônjuges acreditam que haja conserto. De outra forma seria perda de tempo investir no que já não há mais.

Mas o relacionamento já acabou se a sinceridade da outra parte do casal precisa ser questionada, a ponto de cogitarem ir em rede nacional para ser testados por uma máquina que arrancaria confidências. Não quero dizer que o amor não deva resistir às dúvidas, mas a honestidade é o pilar principal que sustenta qualquer relação. Se ela ruiu, por mais doloroso que seja, é preciso admitir: o amor acabou. O amor acaba, não ensinam isso na escola mas é verdade. O amor acaba.

Resta apenas uma alternativa para defender a idoneidade do programa. O casal não percebe a importância da sinceridade da mesma forma que eu. Seria plausível, mas acredito que qualquer mente sensata acaba chegando a essa conclusão. Exceto se ela for tomada pelos ciúmes. Mas, nesse caso, uma máquina atestando a veracidade de uma declaração não seria suficiente para calar aquela voz que vem do fundo da mente. O ciumento perde o controle das faculdades mentais, então nenhuma prova bastaria, de forma que ir no programa seria irrelevante.

Do jeito que escrevo, pode dar a impressão errada de que mentir num relacionamento é errado sempre. Logicamente não sou tão categórico, mas há algumas perguntas que não devem ser feitas. Deveria saber-se a resposta, simplesmente questionar seria atestado de óbito da relação. Pensar que o outro pode estar mentindo é sinal de que não o conhece mais, sintoma de que tudo já acabou.

O pensamento que expressei pode parecer melancólico, o que levantaria a dúvida de ter sido escrito por alguém de coração partido. Não é o caso, e mesmo que fosse, vejo beleza indescritível nessa efemeridade das relações. Não que ter essa consciência em mente seja capaz de anestesiar, mas ajuda.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quarta-feira, dia 5 de Março de 2008.
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Fev 21

Quando decidi prestar vestibular, ano passado, uma das primeiras coisas a serem definidas foram as universidades nas quais eu tentaria entrar. Seguindo alguns critérios lógicos e práticos, cheguei a uma lista de quatro instituições, entre elas, apenas uma fica na cidade onde meus pais moram. Qualquer outra me obrigaria a sair de casa.

Junto com a escolha das universidades, defini qual teria prioridade sobre a outra. Seria útil no caso de ter que optar entre mais de uma. No fim, fui aprovado em dois vestibulares, então foi realmente necessário ter pensado a esse respeito.

Neste texto, vou analisar um aspecto isolado entre todos em que me baseei para defenir minha preferência: ter de me mudar. Ao contrário do que poderia se esperar, ele não pesou negativamente, mas no lado dos prós.

Antes de defender a idéia, quero deixar claro que não se trata de uma manifestação infantil de querer fugir de casa. Nunca me incomodei de morar com a minha mãe, nossa convivência sempre foi saudável, até demais, tomando por base as histórias que ouço por aí sobre outras famílias. Existiram algumas brigas, como é natural, mas nada comparável com os conflitos homéricos que às vezes se espera dos jovens.

Em parte, isso se deve a eu ser, modéstia à parte, um bom filho. Mas principalmente, é porque tenho ótimos pais. O que até, é razoável pensar, justifica o fato de eu ser um bom filho. Mas o tema não é desconstruir e analisar a relação com meus pais, e sim mostrar porque eu dei preferência a sair de casa.

Pode soar contraditório, porém a razão é justamente que morar com meus pais é confortável. Se eu continuasse na inércia, viveria bem; como já disse, gosto de como as coisas estavam. Talvez houvesse um pequeno impedimento geográfico para a carreira que pretendo seguir, mas com alguns concessões, acredito que conseguiria um modesto sucesso.

No entanto, parece-me que o melhor, às vezes único, jeito de evoluir é sair da zona de conforto. E quanto mais cedo toma-se a atitude de fazer isso, mais fácil é a transição. Se eu protelasse muito a saída de casa, talvez desenvolvesse uma preguiça irremediável, e seguisse indefinidamente a lei do menor esforço.

Não necessariamente eu seria menos feliz, por conta disso. De repente seria até melhor deixar as coisas como estão. Jamais saberei, porque as decisões tomadas não podem ser revertidas, a vida é uma só, e não há uma oportunidade para ensaiar. Sendo assim, só resta nos atirarmos de cabeça, calculando os riscos, lógico, mas sem arrependimentos.

Como já disse, tenho a sorte de contar com dois ótimos pais, que podem sustentar essa aventura. Agradeço a eles por isso, e espero poder retribuir um dia. Dessa forma, eu vou, e estou ansioso pelo que me espera. Morar sozinho, longe da vigilância e proteção paterna, será muito diferente.

Vou cuidar da casa, talvez apreder a cozinhar, desenvolver minhas habilidades em gerenciar o dinheiro, e todas aquelas coisas. Terei a lúdica oportunidade de interromper uma faxina para postar no blog, tal qual as irmãs Bottan. Sair da zona de conforto será um desafio, e eu adoro essa idéia.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 21 de Fevereiro de 2008.
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Fev 04

Antes de criar este blog, passei algum tempo ruminando a idéia e pensando como seria. Mais do que não ter confiança plena na minha própria capacidade de escrever textos de qualidade, acreditava que teria dificuldade em encontrar pautas que valessem a pena e o tempo necessário para desenvolvê-las. Cheguei mais de uma vez a criar um blog no Wordpress.com, e depois excluir, sem escrever uma palavra.

Para conseguir realizar minha vontade, foi preciso criar um compromisso. Mas não comigo mesmo, porque eu poderia facilmente me sabotar. Escrevi um texto inaugural e marquei uma data para estréia do blog, depois divulguei o endereço para algumas pessoas. Dessa forma, se eu desistisse e abandonasse, haveria uma cobrança, ou pelo menos assim eu pensei. Ter essa consciência seria o suficiente para que eu desse um jeito de escrever.

Depois de um tempo, percebi que meus receios eram uma grande bobagem. Quando eu me impus a meta de escrever um texto por dia, foi mais fácil do que eu imaginava que seria. As pautas começaram a pipocar na minha mente. Hoje tenho uma dúzia de textos iniciados, e novos surgem com freqüência. Ainda que nem sempre eu tenha tempo de explorá-los como acho que merecem.

Confesso que existem vazios criativos, há momentos em que nada parece ser bom o suficiente, a ponto de eu ficar com medo da folha em branco. Mas certos espasmos esporádicos suprem essa falta, rendendo material suficiente para dias. E esses “brancos” são necessários, porque neles tenho a oportunidade de trabalhar, desenvolver e refinar as idéias. É preciso um tempo para aprofundar os temas, afinal ninguém vive de epifanias.

Ainda não sei se esse blog fará sucesso. Não sei se ele me trará fama, fortuna e mulheres, que seu objetivo, no fim das contas :D. Mas, enquanto o convite para a Ilha de Caras não chega, vou me divertindo em fazê-lo, e é isso que realmente importa.

O que se conclui dessa história é mais uma daquelas constatações mais fáceis de falar do que fazer, mas que são boas de ouvir de vez em quando: não perca tempo duvidando da sua própria capacidade, simplesmente tente. Suas chances de ter sucesso aumentam, já você sai na frente dos outros e ganha tempo.

Não estou falando para pular a etapa da preparação. Mas em alguns casos, um pouco de ousadia é fundamental, porque depois que a hora passar, só restará o arrependimento do que deixou de ser feito.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Segunda-feira, dia 4 de Fevereiro de 2008.
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Fev 03

No fim do ano passado, aconteceu uma coisa terrível. Abriu uma academia no lado da minha casa. Lá, eles dão aulas de Axé. Não preciso dizer mais nada.

Axé é um tipo de música diferente de qualquer outro. Não só é ritmicamente fraco como desprovido de melodia. Mais: as letras das músicas fazem dela meta-canções, repare que elas sempre se tratam de instruções de como dançar. Não há conteúdo algum, apenas “levanta a perna esquerda”, “agora balance a cabeça para lá e para cá”, “todo mundo lambendo o cotovelo”, “tá bonito, que beleza”. Nada muito mais complexo que o Barney faria.

As aulas começam às sete da manhã e vão até dez da noite. Por isso não se admire se me tornei PhD em axé music, depois de ouvir pela pentelhonésima vez que o pererê saiu na capa do jornal, você também seria. E como se não bastasse a qualidade duvidosa da música, eles só possuem um CD, aposto. As mesmas canções são repetidas à exaustão, já decorei a ordem em que elas estão no disco.

Justiça seja feita, por alguma razão inexplicável, eles tocam Coldplay, às vezes. Uma remix techno tosco, mas é Coldplay, ainda é melhor que axé. O que não torna o barulho menos incômodo, porque mesmo uma música boa, na hora errada, é capaz de tirar a concentração. Programe com um barulho desses, leia com um barulho desse, estude com um barulho desse, escreva um blog com um barulho desse, VIVA com um barulho desse. Impossível.

Ano passado, estava estudando para o vestibular. Juro que durante uma prova, ao mesmo tempo em que recordava as características que diferenciam as angiospermas monocotiledôneas das dicotiledôneas, veio a minha mente uma canção de axé. Devo ter associado as duas coisas, numa espécie de condicionamento mental.

O que me lembrou aquele episódio do Laboratório de Dexter no qual ele coloca uma gravação para tocar enquanto dorme, com o objetivo de aprender francês. Mas o aparelho dá problema e fica repetindo a mesma frase a noite toda. No dia seguinte tudo que ele conseguia falar era omelete du fromage. Que significa omelete de queijo, para quem não sabe.

Junto de Voulez-vous coucher avec moi, ce soir da canção Lady Marmalade, da trilha sonora de Moulin Rouge, essa frase é a única coisa que eu sei de francês. E eu não sei o que Voulez-vous coucher avec moi, ce soir significa, não sei se vale mesmo assim.

Mas a discussão que quero levantar com esse post não é sobre isso, é sobre o professor da academia. Imagine como seria ter de passar o dia todo feliz alegremente berrando para incentivar as tiazinhas flácidas que estão tentando entrar em forma para o verão? Afinal animação é o mínimo que se espera dele, quem gostaria de ter aula de axé com o Marvin?

Manter essa constância de humor é desumano. Deve ser profundamente deprimente ter um emprego em que você não tem a liberdade de chegar um dia com vontade de mandar todo mundo para aquele lugar sem motivo aparente. Aposto que o professor da academia chega em casa à noite e chora copiosamente, toma várias doses de antidepressivos de tarja preta e só vai dormir abraçado com seu ursinho de pelúcia rosa, criatura frágil que ele deve ser. É um emo de fim de semana.

Alguns podem argumentar que para ele triste seria ficar no computador. Pode até ser, mas pelo menos eu não tenho a obrigação de nunca ter um dia ruim. Já, segundo meu pai, nesses dias ele toca Coldplay. Faz sentido.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Domingo, dia 3 de Fevereiro de 2008.
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Fev 01

http://flickr.com/photos/gustavog/11576094/Trolls são sujeitos que entram na discussão com pedras nas mãos. Seu objetivo é infernizar a vida dos outros, geralmente acrescentando pouco à conversa. E exceto nos casos daqueles que foram cegados por suas ideologias, eles sabem dessa condição, têm consciência que estão apenas provocando.

Muitas vezes os trolls se valem de vocabulário chulo e direcionam suas provocações aos emissores, em vez das idéias em si. O que me surpreende neles é que, na maior parte dos casos, são bem articulados, sabem argumentar, eventualmente têm um repertório vasto. De onde vem, então, essa vontade de gerar incômodo, o que faz alguém se tornar um troll?

Seria vontade de chamar atenção? Mostrar-se superior aos outros tentando diminuí-los. Ou seria isso uma forma de maquiar sua ignorância? Por melhor instruídos que sejam, lhes falta capacidade de produzir algo melhor, e essa inveja é elaborada em raiva.

Difícil chegar a um veredito. Fato é que trolls me parecem criaturas frágeis, eles acabam por destruir sua própria credibilidade e isso, para mim, é a exposição da fraqueza que eles tentam esconder. Sua mínima capacidade de convencer o interlocutor pelos métodos tradicionais de retórica acaba por se voltar contra si.

Seja por sorte, ou culpa do anonimato, nenhuma figura dessa pousou neste território, ainda. Nem sei o que fazer se isso acontecer, tento responder à autura? Ou sigo a abordagem “don’t feed the troll” e o ignoro, deixo-o falando sozinho? Esse caminho é atraente, certamente é o mais confortável, mas também é preguiçoso. Quando a hora chegar acho que descubro como reagir.

Provando que trolls são um fenômeno universal, não exclusividade dos blogs, seção de cartas do leitor da SuperInteressante de fevereiro:

Troll pergunta

A parte boa é ver que os jornalistas ainda têm senso de humor, a resposta da revista foi:

SuperInteressante responde

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 1 de Fevereiro de 2008.
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