A história de um calouro John Mayer
Mar 08

O patriotismo é um dos valores mais fortes no caráter das pessoas. Os países se esforçam em tornar seus cidadãos seres apaixonados pela nação, o que faz sentido, eleva a auto-estima do sujeito com a sensação de unidade ao mesmo tempo que o torna mais fácil de manobrar. Lógico que às vezes não é bom, o patriotismo foi um dos pilares da política de Hitler (por gentileza, ignore a Lei de Godwin e continue lendo o texto), mas, na maior parte dos casos, amor à pátria é bem-vindo.

Entretanto, eu não faço parte da massa de manobra. Não vou gostar do meu país só porque é o que se espera de mim, ou por causa de uma propaganda de tevê me dizendo que o Brasil é o máximo e que o brasileiro não desiste nunca. Vou procurar razões para fazer justiça ao hino e idolatrar minha terra natal. Eu procuro e, infelizmente, não encontro muito do que me orgulhar.

Exceto por alguns destaques nos esportes, sobra pouco para despertar o patriotismo. E mesmo nesses casos, vendo a biografia dos atletas, é possível perceber que o mérito é todo deles, não do país. Pelo contrário, muitas vezes, a pátria foi um impecílio, não colaborou com nada e dificultou o caminho, já que além dos desafios das modalidades esportivas, eles precisaram enfrentar barreiras sociais e econômicas. Muito me surpreende que eles ainda queiram defender essa bandeira.

Depois de chegar nesse ponto, já decepcionado mas ainda com esperança, vamos à pergunta: se o Brasil não está legal, como vamos consertar? Um bom começo é entender o problema. Nesse momento, podemos usar um discurso default de político em propaganda eleitoral, afinal, se há alguém que deve conhecer o país e seus entraves, é o sujeito que está disposto a governá-lo. E a eleição é a hora de revelar as dificuldades, geralmente para colocar a culpa nos outros governos, e mostrar a própria competência em resolvê-las.

Seguindo esse método, identificamos como problemáticos os serviços básicos: educação, saúde, policiamento, infra-estrutura, etc. Se essas obrigações do governo fossem cumpridas de forma satisfatória, teríamos a base consolidada para alcançar o crescimento e projeção que almejamos. O sucesso de uma nação em qualquer área é conseqüência direta do investimento nela, exemplo trivial é o da Índia, que se tornou referência em programação e serviço de call center depois de gastar com ensino. Isso levaria a crer que a solução é dinheiro.

Se é assim, Raul estava certo, a solução para o nosso povo é alugar o Brasil. Mas isso não condiz com a realidade, estamos batendo recordes de arrecadação. Então o problema é outro, estamos gastando mal. Agora temos que falar de corrupção, afinal qualquer brasileiro sabe que é disso que se trata. E a maior parte de nós reclama, xinga os políticos, ameaça-os, não fazemos nenhum movimento organizado para efetivamente protestar, mas o sentimento é comum.

De fato, é curioso, somos insatisfeitos e politicamente calados. Na minha mente, são incompatíveis a revolta e a apatia, mas é assim o povo de uma forma geral. Dito isso deixe-me voltar ao meu tema, que não é incentivar a revolução armada, mas entender o problema do Brasil. Minha linha de raciocínio a partir de agora é: se falamos mal dos políticos, é porque faríamos diferente deles no seu lugar, talvez melhor, talvez pior, mas necessariamente diferente.

Estatísticamente, está provado que não é verdade. A maior parte das pessoas, especialmente as das classes mais baixas, agiria exatamente da mesma forma corrupta, em uma hipotética situação de poder. E isso é lógico, os governantes são um reflexo do povo que representam. É a aplicação prática da máxima: cada país tem o político que merece.

Agora sim, chegamos no âmago da questão, o Brasil não é um país sério. O problema é mentalidade coletiva, o problema do Brasil é o brasileiro. Parece estranho que uma situação tão grande, que teimamos em exteriorizar, colocando a culpa nos outros, é de fato conseqüência do que nós somos. Mas se você refletir sobre o assunto, perceberá que faz sentido, uma nação é resultado do seu povo.

Estou generalizando a figura do brasileiro, que fique claro. Existem numerosas exceções, infelizmente essa não é a realidade da maioria. Grande parte das pessoas é do tipo que glorifica a pobreza, como se ela fosse atestado de humildade e, portanto, de credibilidade. A opinião de que não é miserável não tem valor, porque veio de alguém que não passa fome. Deveria ser o contrário, essa voz deveria ser ouvida com mais respeito, porque é de quem teve oportunidade de estudar, mas sabedoria deixou de ser uma prioridade. Muitas vezes, essa espécie de inveja é elaborada em raiva. As pessoas passam a não gostar de quem alcançou o sucesso.

É ainda mais triste perceber essa postura vinda do governo. Suas obras assitencialistas visam os pobres, e eles fazem a cortesia com o chapéu da classe média. Enquanto ela está lançada a sua própria sorte. Não há um incentivo sequer, pelo contrário, ela deve lutar contra a burocracia. E a razão para essa política populista é óbvia, conseguir votos.

Mudar a mentalidade de uma nação é muito difícil. Bem mais complicado que conseguir dinheiro, por exemplo. Por isso, eu perdi a esperança. Assim fica impossível ser patriota, esse sentimento importante de se orgulhar de pertencer a um povo, eu não tenho mais. Não sou do tipo que só da valor ao que vem de fora, seria igualmente burro. Apenas sou um sujeito ponderado e sem fé no seu país.

Se é amá-lo ou deixá-lo, deixá-lo-ei*. Não é possível fazer isso agora, mas é um plano. Não sou mulher de malandro, para mim, chega.

*A primeira vez usando mesóclise a gente não esquece.

**Meio que roubei esse tema da Layla.

Textos relacionados:

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Sábado, dia 8 de Março de 2008.
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3 comentários no texto “À pátria amada, idolatrada: Salvem, salvem”

  1. Brasil:Carnaval e Bunda. | Missegura - Não tenho coragem de falar,o jeito é escrever. diz:

    […] quiserem ler uma abordagem mais séria,podem ver aqui no blog do Leandro. […]

  2. Fabiane diz:

    “Não sou mulher de malandro, para mim, chega.”

    WOW!

  3. Sobre a venda de bebidas na estrada | Leandro Facchinetti diz:

    […] vou ser justo, isso não é problema da mentalidade burra do brasileiro, faz parte da natureza humana. Nos Estados Unidos, nunca se consumiu tanta bebida alcoólica quanto […]

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