Quebrando o silêncio - filosofando sobre quando tudo se torna nada A história de um calouro
Mar 06

Por uma questão de dias, não sou obrigado a votar esse ano. Não terei completado dezoito até o primeiro turno, mas, ainda assim, tirei meu título de eleitor. Um pouco porque não confiei nessa tecnicalidade, outro pouco porque assim resolvi esse impasse de vez, já que daqui dois anos será obrigatório para mim. É meio estranho o Estado me considerar maduro o suficiente para decidir os futuros governantes mas não para dirigir um carro. Sei que é porque não poderia responder por um crime cometido por mim no trânsito, o que não torna menos estranho.

Minha primeira crítica é sobre a obrigatoriedade do voto. Democracia é ótimo, ela deve ser defendida acima de tudo, concordo com isso. Uma das suas instituições fundamentais é o voto, também não há do que reclamar nisso. Porém, se entendi direito, uma das razões de ela ser louvável como modelo civil é justamente primar pela liberdade. Escolher seus governantes é uma expressão de liberdade, sim, mas abster-se dessa escolha também é uma opção. Por isso faz mais sentido o voto ser uma manifestação voluntária.

Só com essa atitude, a qualidade dos votos já aumentaria. Acredito que a maior parte dos analfabetos políticos não se dariam ao trabalho de votar se não fossem obrigados a isso. Se não por consciência de sua própria situação, por falta de vontade. Há de se considerar o problema da compra de votos, eles poderiam se tornar ainda mais decisivos quando diminui o número de pessoas que votam. Chame de otimismo, mas acredito que o aumento da proporção de votos conscientes entre os não-comprados seria suficiente para desequilibrar a balança para o melhor lado.

Alguns podem alegar que o voto facultativo incentivaria a alienação política. Discordo desse argumento, tirar a obrigatoriedade diminui a resistência, torna a eleição mais atraente. Essa reação varia entre as pessoas, mas acredito que a massa crítica de pessoas bem informadas sentiria isso. Dessa forma, outa vez, a qualidade dos votos aumenta. O que incentivo não é segregação, é dar a possibilidade de não fazer parte do processo àqueles que não querem.

Nesse clima de manifestação política, não posso deixar de comentar minhas impressões sobre uma propaganda institucional passando na tevê. Ela se dirige aos eleitores dos candidatos vencedores das eleições passadas e fala da importância de acompanhar o desempenhos desses políticos. Assim fica fácil, voto em quem tenho certeza de que irá perder e estou livre da preocupação política por quatro anos (ou oito, depende do cargo). E ainda com o privilégio de reclamar dizendo:

- Pois é, eu não votei nele, você sim. Então nem vem reclamar.

Não há argumento mais imbecil que esse, mas já ouvi mais de uma vez. Acompanhar e cobrar os políticos é obrigação de todos, não só dos seus eleitores. Óbvio que falar isso é mais fácil que fazer, mas é a verdade, e ela tem que ser dita.

No final da propaganda há outra frase que destaco, mas com essa eu concordo, por mais paternalista que seja: “O Brasil é tão bom quanto o voto que você colocou na urna”. É cruel, mas é verdade. Isso me leva à defesa de uma atitude que teria tomado em algumas eleições no passado, se pudesse, votar nulo. Diferente do que afirmam, o voto nulo não é fugir da escolha, esse é o voto em branco. Votar em branco é deixar sua cédula para outro preencher (agora não é mais cédula, mas você entendeu).

O voto nulo é uma manifestação política legítima, sim. E valiosa. É dizer que nenhuma das alternativas é boa o suficiente e você não está disposto a nivelar seu país por baixo escolhendo o menos pior ou o rouba mas faz. Dificilmente alguma eleição chegará a computar o número de votos nulos suficientes para obrigar um novo turno, com outros candidatos, como prevê a lei. Mas não deixa de ser um protesto válido.

O Brasil é tão bom quanto meu voto, então vou votar bem. Nem que isso seja admitir que não há escolha alguma.

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Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quinta-feira, dia 6 de Março de 2008.
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Apenas um comentário no texto “Sobre política”

  1. Fabiane diz:

    Engraçado, fazem alguns meses que estou fermentando umas idéias sobre os últimos parágrafos desse seu texto, mas ainda não consegui um volume bom.

    Taí, mais um post que eu gostaria de ter escrito.

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