Mar 30

Antes de começar minha crítica, quero deixar claro que reconheço a importância da polícia. Não sou daqueles anarquistas que defendem o caos. Um sistema que se baseie no bom senso das pessoas seria mesmo ótimo, mas é impraticável, infelizmente. Só funciona na mentalidade pequena desses bolcheviques de mesa de bar. Sendo assim, podemos partir desse ponto: todos precisamos de polícia.

Aliás, não é difícil perceber que estou certo quanto a isso. Uma das poucas experiências de sociedade sem polícia acabou muito mal. Foi em uma cidade do Canadá em que a corporação entrou em greve. Estamos tratando de um país de primeiro mundo, civilizado, teoricamente a melhor amostra de população para tentar estabelecer a anarquia. Ainda assim, nessa situação, as pessoas agiram como selvagens, o número de crimes cometidos aumentou consideravelmente.

Mesmo que seja indesejável, a polícia é absolutamente necessária. Dessa forma, espera-se que ela seja uma das instituições mais sólidas e respeitáveis. Como justificar, então, a cartilha feita pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, órgão do governo federal, com o sugestivo título “A polícia me parou. E agora?“? Nela, há recomendações para evitar abuso policial, entre elas: não tocar o policial, não ameaçá-lo, não fazer movimentos bruscos…

Agora, você deve estar se perguntando: “Onde foi que eu vi isso antes?”. Eu respondo: essas são exatamente as mesmas recomendações dadas para agir quando abordado por um criminoso! E faz sentido, às vezes estamos na posição de tratar quem deveria nos proteger da mesma forma que tratamos quem nos ameaça. Se até o governo federal admite isso, há algo de muito errado.

Não vou generalizar, há alguns policiais que não se enquadram nessa crítica, eles fazem jus a missão de proteger. Mas, pelo que percebo, esses são minoria. Na maior parte das vezes, somos agredidos. E isso vai muito além de tapas e pontapés. Em uma viagem de carro pelo interior do Paraná encontramos um policial rodoviário em um ponto estratégico da pista no qual a faixa se tornava contínua. Lá, ele parava os veículos com a intenção explícita de ganhar propina.

Era perceptível que ele não tinha intenção de multar ou orientar o motorista, ficou jogando conversa fora e sequer estava com um bloco de multas. Praticamente um mendigo de farda. E esse caso está longe de ser exceção, algumas pessoas têm até o hábito de reservar dinheiro para os guardas na estrada, quando vão viajar. A corrupção alastrada dessa forma é, para mim, uma forma de violência.

O mérito dessa discussão não é a quem devemos atribuir a culpa, policiais que recebem propina ou pessoas que aceitam isso e pagam. Meu objetivo é encontrar a solução. E ela é a mudança de mentalidade por parte dos envolvidos. Quando encontramos policiais como os citados, o certo a fazer é não pagar.

Isso envolve alterar a forma com que encaramos o sistema. Para a maioria das pessoas, corrupção é assunto de políticos, somente eles são responsáveis por esse mal. Posição conveniente essa de atribuir os problemas para algo que não podemos controlar. Mas é completamente errado.

Somente os casos de corrupção que envolvem políticos viram escândalos porque eles estão em maior evidência. Porém o mensalão e a caixinha do guarda são igualmente ruins, se não em proporção, com certeza em termos éticos. Ambos vêm do mesmo lugar, então para resolver a questão é preciso mudar o pensamento de cada um.

Por isso não tenho esperança de melhoria no futuro próximo. Talvez a única saída que reste seja mesmo assumir a sujeira toda e institucionalizar a corrupção. Quem sabe fazer como a empresa israelense que pediu dedução no Imposto de Renda pelos gastos com propina? Ela se justificou afirmando que esse tipo de gasto faz parte da tradição do país.

É ridículo e vergonhoso? Sim. Mas é nossa realidade.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Domingo, dia 30 de Março de 2008.
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Mar 29

Há momentos em que somente palavras escritas não bastam. Esse é um deles. Aperte o play.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sábado, dia 29 de Março de 2008.
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Mar 28

Quando discuto sobre religião, sempre aparece alguém dizendo que devemos simplesmente respeitar as crenças dos outros. A filosofia simplista do viva e deixe viver. Para esse tipo de gente, a crença pessoal dos outros não nos afeta, acham que forço o argumento quando digo que ela é preocupação de todos.

Leiam esse texto.

Aos olhos do tipo de gente que descrevi no primeiro parágrafo, por mais que concordem que a atitude dos pais tenha sido completamente errada, devemos respeitar sua decisão, afinal, religião não se discute. Eles suportam a decisão dos pais em MATAR a própria filha com toda crueldade. Não consigo entender essa defesa, parece que vem de pessoas que perderam o coração.

Devo dizer: se você acha mesmo que a crença pessoal alheia não lhe diz respeito, você é CÚMPLICE do assassinato. Então, não consigo entender que espécie de amor ao próximo é essa que vocês dizem defender. Eu, que sou ateu, pareço ter mais sentimentos que vocês, religiosos sangue de barata.

A idéia de que devemos simplesmente respeitar as crenças está perigosamente errada. Mas não é difícil entender porque ela é tão difundida: a base de qualquer religião é que a fé deve ser cega, e que quem discute sobre ela está fazendo algo de errado, só nos cabe respeitar. É comum crianças ouvirem isso desde muito cedo, de forma que é possível ela considerar isso certo.

Aprendemos por repetição e imitação, sem necessariamente fazer juízo de valores. Ainda mais quando somos pequenos e devemos obedecer aos outros. Espero que esteja claro, não defendo a desobediência, mas não há razões para crer que o raciocínio crítico seja diferente de todo o resto, ele também deve ser ensinado, e muitas vezes não é. Pessoas que aprenderam a questionar percebem que simplesmente respeitar a religião dos outros não é correto. Devemos discutir o assunto, sim.

Senão, criam-se pessoas cegas, como os pais da garota e os religiosos que os defendem. Em outras palavras, criam-se homicidas.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 28 de Março de 2008.
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Mar 27

Lembro de, há algum tempo, estar procurando algo para assistir na tevê e, ao passar pela HBO, encontrar um espetáculo diferente de tudo que conhecia. Era apenas uma mulher no palco falando, com um microfone nas mãos; sem cenário, apenas um banco em que se encontrava uma garrafa com água. Na sua frente, milhares de pessoas ocupavam vários andares de platéia. Todos rindo.

Mais tarde, descobri se tratar da Ellen DeGeneres, o show se chama Here & Now, e o que ela faz tem nome: Stand-up Comedy. É um gênero de humor em que o comediante se apresenta sozinho, sem recurso algum além de um microfone, tanto que também é conhecido por humor de cara limpa. Sendo assim, o destaque está todo no texto e no ator. Achei aquilo fabuloso.

É o que o Jô Soares e o David Letterman fazem em pequenos blocos, mas, nesse caso, com mais de uma hora de duração. Acredito que seja a forma mais direta de teatro, não há personagens ou enredo, e o objetivo é muito claro, fazer as pessoas rirem. Para isso, normalmente o texto trata de coisas cotidianas, a graça vem da reflexão.

Essa é outra característica que me atrai. O humor é inteligente porque não subestima a platéia, e ela é muito mais participativa do que normalmente seria. No fim, as pessoas estão mais rindo de si mesmas do que da peça. Saem todos os adereços e aparatos, as tortas na cara e narizes de palhaço, e o que sobra é nossa vida. Afinal, há algo mais hilário que ela?

Não pense, entretanto, que é fácil fazer esse tipo de comédia. Há sempre um texto preparado, que leva anos para ser desenvolvido. Normalmente, não se usam piadas prontas, dessas de salão, e é comum que o ator redija seu próprio material. Além disso, ele precisa saber improvisar muito bem para se adaptar ao público. Especialmente na hora de lidar com os hecklers, como são chamados os sujeitos que berram besteiras ou insultos no meio da apresentação.

Por conta disso, mesmo que seja uma apresentação repetida, consigo me divertir toda vez que assisto um show de stand-up comedy. Nem que seja só por invejar a capacidade desses atores de se expressar bem. Alguns acreditam que seja a modalidade mais complicada de atuação, tamanha a dificuldade de dominar uma audiência tão participativa.

Como o nome já entrega, o stand-up comedy não surgiu no Brasil. Mas está começando a se popularizar por aqui, o Rafinha Bastos faz sucesso no Youtube e excursiona o país com seu A arte do insulto, que gostaria de assistir. Espero que, em breve, tenhamos um Jerry Seinfield tupiniquim.

Enquanto isso não acontece, aproveite para conhecer esse gênero. Afinal, o humor é a mais nobre manifestação da inteligência, e sua essência é o stand-up comedy.

Referência

Atualização: Obrigado, Vanderlei, meu pai, pelas correções nesse texto e em vários outros.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Quinta-feira, dia 27 de Março de 2008.
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Mar 22

Desde quando surgiu, o Skype é sinônimo de voip. Ele faz por merecer, é um software de qualidade e realmente inovador à época em que foi lançado. O único problema que tive com ele, até hoje, foi instalá-lo em um Ubuntu 64bits. Mas isso foi superado com a ajuda deste tutorial. Recentemente, entretanto, topei com uma de suas limitações: fazer chamadas de vídeo com apenas uma pessoa por vez.

Então, lembrei de um software recomendado pela Info, há uns meses. Se chama ooVoo, e suporta conversas em vídeo com até seis pessoas, uma verdadeira videoconferência. Quando li, não dei importância, na maior parte das vezes, um programa desse estilo deve ter bons motivos para me convercer a mudar, afinal é um trabalho a mais: instalar outro software, migrar a lista de contatos, apresentar aos amigos que não conhecem… Mas agora eu tinha um motivo.

De início, ele é muito parecido com aquilo que já estamos acostumados, a interface lembra o MSN, ele faz todo o básico de um IM decente: chat, enviar arquivos, etc. Mas na primeira conversa com vídeo, já ficou clara uma sutil diferença na qualidade da imagem, ela ficou ligeiramente melhor que no Skype. Nada que, só por isso, seja razão para migrar, mas é uma vantagem.

Talvez se deva ao fato de o ooVoo não usar redes P2P, como o concorrente, mas não sei se isso seria bom sempre, porque assim aumenta a dependência nos servidores. O que também não é grande desculpa, porque o Skype conta com quedas feias e mal-explicadas no passado.

Um diferencial notável do ooVoo é ele nativamente gravar as conversas. Até os vídeos podem ser salvos, em .avi ou .flv. O Skype precisa de plugins para fazer isso, e, até onde sei, nenhum deles é grátis.

Além disso, é possível enviar arquivos de até 25 Mb e correio de texto, voz ou vídeo, mesmo para os contatos off-line. Há, ainda, como gravar a mensagem e armazenar no servidor do ooVoo, mandando apenas um link por e-mail para qualquer pessoa. O único problema é a limitação de um minuto de duração. Servirá bem apenas para avisos curtos.

Quando testei esse recurso, o vídeo engasgou um pouco na execução. Mesmo assim, fiquei bastante satisfeito com o resultado e a facilidade de uso.

Outro item interessante, para quem liga para os EUA ou Canadá, é que não há custo nas chamadas para esses países. Inclusive para telefones fixos e móveis que não são voip. Logicamente, não há garantias, e existe um prazo para acabar o almoço grátis: 1° de abril (não é mentira), talvez ele seja extendido.

Saindo da parte prática, e indo para os acessórios graciosos, é possível usar ringtones, como seria feito em um celular. E também adicionar efeitos no vídeo em tempo real. O ooVoo não faz isso nativamente, mas com um clique inicia-se o download e instalação do Webcam Max, de 21Mb.

Durante o processo, o Windows Vista reclamou do driver não ser certificado, no entanto, mandando ele ignorar isso e prosseguir, tudo funcionou sem exigir configuração alguma. Sequer foi necessário reiniciar o ooVoo.

Fiquei positivamente supreso com os efeitos. Com eles, troca-se o fundo da imagem por uma paisagem, aplica-se filtros, coloca-se rostos ou máscaras sobre a face. E ela segue os movimentos da pessoa, tudo em tempo real. Deveras divertido.

Com esses efeitos ativados, você pode, ainda, mudar a origem da imagem da web-cam para o cursor do mouse ou uma janela aberta. Não serviria para fazer um tutorial por causa da limitação de um minuto na gravação de vídeos, mas para ajudar alguém pela internet pode ser útil.

Tive a curiosidade de entrar no programa que faz esses efeitos todos, o Webcam Max, e ele é pago. Está instalado um trial de 30 dias, e não estou certo se o plugin para o ooVoo continua a funcionar depois disso. No site da empresa não diz nada sobre o assunto, só poderei afirmar com certeza daqui um mês.

Enfim, o ooVoo é grátis e tem um beta e um logotipo espelhado, se você é como eu, isso é bom sinal. Há versões para Windows e Mac (mas, nele boa parte dos recursos legais que mencionei aqui não funcionam). Experimente, você pode não ganhar nada, mas também não perde.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sábado, dia 22 de Março de 2008.
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Mar 21

http://www.flickr.com/photos/loungerie/1525574884/

Quando escrevi que não abandonaria meu senso de humor, não foi necessariamente a esse tipo de humor que eu me referia. Mas não resisti à piada, ela é deliciosamente herética para eu deixar passar.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sexta-feira, dia 21 de Março de 2008.
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Mar 20

Mais uma vez, vou apelar para a metalinguagem. Pode ser útil para quem pretende desevolver desenvolver qualquer atividade ligada à criatividade, nesse caso, escrever um blog. Se não for, serve apenas como um manifesto, para eu ler daqui algum tempo e refletir.

Quando iniciei este blog, eu me enchi de referências e dei vazão a minha vontade de escrever. Isso funcionou bem para os primeiros textos, mas agora já chegou a hora de desenvolver um estilo próprio. É muito complicado partir do que já é conhecido para criar algo novo e autêntico. Exige muita dedicação e, ainda assim, não há garantia alguma de sucesso.

Nessa hora, trabalhar exclusivamente com material pessoal complica ainda mais a situação. Não há parâmetro nenhum para me guiar, o que é libertador, é verdade, mas desafiador também. Minha primeira ação foi definir melhor meu público. Em vez de atirar para todos os lados, focar em determinados formatos parece ser uma abordagem interessante.

Não me limitei nos assuntos, até porque essas decisões são para auxiliar, não para diminuir as possibilidades, e conseqüentemente, a diversão. Foi apenas um caminho natural que me levou a direcionar em um tipo de leitor. Mas nessa empreitada em me definir como blogueiro, agora percebo, arruinei meu humor. E a isso que se refere a sabotagem no título.

Sei que meus textos mais recentes não estão mal escritos. Mas estou longe de ficar satisfeito com eles. Parece tudo muito lúcido, mas sem graça, além de que estou usando um vocabulário rebuscado demais. Não adianta explorar decentemente um assunto e ter como resultado um artigo pouco atraente. Especialmente porque quero cumprir um objetivo: ser lido pela maior quantidade possível de pessoas.

Aparentemente, meu gosto pelas técnicas de apresentação de idéias jogou contra mim mesmo. Mas não quero falar com as paredes, então, a partir de agora, minha missão é simplificar o que faço. De fato, acredito cada vez mais naquela frase que define escrever não como juntar palavras, mas cortá-las.

Ser simples é muito difícil, mas vale a pena o esforço. Os Titãs conseguiram passar sua mensagem para um público maior que o Caetano, não há o que discutir, e eles não precisaram nivelar por baixo para isso. Esse é meu novo ideal de excelência.

Tenho medo de me enquadrar naquela parcela de blogs que faz parte da blogosfera intelectual. Não vou deixar de me preocupar em melhorar a escrita, mas não colocarei isso acima do senso de humor, que é a mais nobre manifestação de inteligência. Esses meus últimos posts vão ficar lá para me lembrar disso.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Quinta-feira, dia 20 de Março de 2008.
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Mar 19

Estava eu apreciando o belo produto tipo exportação que é a teledramaturgia nacional, quando ouço o comentário:

-Só passa sexo, violência e valores desvirtuados nessas novelas. Que belo exemplo estão dando para as pessoas.

Isso, para mim, coloca em questão todo o sistema de produção de entretenimento. Será mesmo que é obrigação da tevê servir de exemplo? Mesmo que não seja, seria correto, para não dizer ético, transmitir programação do tipo que serviu de inspiração à crítica acima?

Vamos partir de dois princípios: esse tipo de conteúdo tem como objetivo atingir o maior público possível; e ele não tem obrigação de ensinar, mas divertir. O ideal talvez fosse aliar educação e entretenimento, mas essa fórmula fatalmente se torna insípida. E, em princípio, não há problema algum nisso. Afinal, cabe aos pais a obrigação de ensinar os filhos, querer transferí-la para a tevê é inocente e preguiçoso.

Mas, nessa queda ladeira abaixo em termos de qualidade, chegamos no cenário atual em que poucas atrações são diferentes de um lixo completo. A reflexão nos leva ao questionamento: as pessoas procuram conteúdo rasteiro, os produtores lhes dão, qual a direção dessa relação causal? A apelação de boa parte da programação é culpa dos espectadores ou de quem está do outro lado da tela?

É fácil resolver isso se lembrarmos que o objetivo da tevê é ser assistida pela maior quantidade possível de pessoas. A qualidade de uma novela é reflexo de seu público, não ele é conseqüência dela, simplesmente porque sua influência não chega a ser tão grande a ponto de afetar o comportamento.

Pode parecer que estou errado, se observarmos o grande poder de persuasão das novelas. Mas ele surge da predisposição do público em aceitar, as pessoas que criam a demanda, então são mais senhoras de si que os ditos grandes interessados por trás dessa suposta manipulação. É uma curiosa manifestação do poder das massas, que podem influenciar quem as influencia.

Não estou vivendo em outro mundo, como pode parecer à primeira vista. A idéia que defendo só não é tão clara a ponto de ser percebida por todos porque a manipulação do público no conteúdo gerado não é voluntária. Mesmo assim, é possível reescrever a crítica que abriu o texto, já que a novela é mais um diagnóstico que um agente, como insistem alguns:

-Só passa sexo, violência e valores desvirtuados nessas novelas. A que ponto chegou o povo.

É normal empurrar a culpa do emburrecimento coletivo para fatores grandes e fora do nosso controle, como a produção de conteúdo na tevê. Mas não é simples assim, essa abordagem é defensiva demais. A raiz do problema é a educação que as pessoas estão recebendo, ela forma o indivíduo que vai querer assitir lixo. As emissoras apenas farão sua parte, dando-lhes lixo.

O cenário sempre fica mais tenebroso quando trazemos o problema para perto de nós mesmos, mas, nesse caso, é o correto a fazer. E, afinal, ninguém disse que a inteligência coletiva necessariamente era inteligente.

Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Quarta-feira, dia 19 de Março de 2008.
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Mar 18

O título em latim e com referência a um filósofo é uma forma de estimular o pensamento. Uma manifestação da forma se misturando ao conteúdo, como você verá ao longo do texto. Não tenho certeza da gramática da frase, é que minha fluência em linguas mortas está meio enferrujada. Acho que a intenção já vale, além de que dá um efeito estético interessante.

Há uma curiosa corrente de pensamento que defende a ignorância voluntária como chave da felicidade. Uma espécie de filosofia de vida que prega justamente a abstinência de filosofias. Certamente, é uma idéia atraente. A princípio, desconhecer pode ser anestésico para nossa mente nem sempre disposta a lidar com a realidade cruel. O Inagaki escreveu uma resenha de um livro deveras provocativo sobre o assunto.

A dúvida paira no ar: devemos perseguir o conhecimento, ou será melhor apreciar a situação de ignorar? É fato que algumas verdades podem machucar, de forma que parecem fazer mais mal do que bem. Quando explícitas, elas ferem nosso ego, nossa auto-estima, nossa vontade de cantar uma bela canção.

Ainda assim, acredito eu, é melhor que sejam ditas. A ignorância consentida é o ópio dos fracos. Como com a droga, a sensação de felicidade é falsa, tem prazo de validade. Quando ele vence, voltam os questionamentos e dúvidas de forma ainda mais avassaladora. A situação se configura pior do que no início.

O que defendo não é passar o tempo todo preocupado com o existencialismo. Mas o mínimo que espero é coragem para encarar essas perguntas de frente, sem fugir alegando preferir desconhecer. Defender a ignorância voluntária é discurso de quem quer manipular as pessoas. Afinal, massa de manobra precisa ser dócil.

Nós estamos longe de ter todas as respostas, nem temos tal pretensão. Tenhamos a franqueza de admitir nossa ignorância, mas também não vamos exaltá-la. Isso é essencial, não podemos confundir humildade com conformismo.

Meu argumento ganha força quando lembro que não há ignorância seletiva. Se decidimos ter essa postura de abraçar o desconhecimento como forma de levar a vida, temos de fazer isso por completo em todos os setores. Porque a própria idéia de escolha não cabe, uma vez que pressupõe saber as alternativas e opções.

Fazendo dessa forma, deixamos aberta uma brecha perigosa: podemos facilmente ser explorados e reprimidos. Como na letra de Linguagem do Morro, do Chico:

“Mas como não quer reconhecer
É ele escravo sem ser
De qualquer usurário”

Se o sujeito ignora a tal ponto de não saber que está sendo explorado, não haveria problema algum. Seria possível manter a felicidade mesmo nas condições mais insalubres. Mas sabemos que não é o caso, essa alternativa é completa ficção.

Sendo assim, não vamos perder nosso sono com questões irrelevantes. Ou mesmo passar tempo demais com as relevantes. Mas não adotemos uma postura completamente passiva perante elas. Reparemos que, na maior parte dos casos, quem defende essa postura think-free não faz o que diz.

PS: Esse é meu primeiro artigo com um link para o Pensar Enlouquece, acho que faz sentido celebrar isso com um PS. Questão de coerência. :D

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Terça-feira, dia 18 de Março de 2008.
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Mar 14

Sempre ouvi dizerem que o mundo real era cruel. A vida é bela, mas o mundo é cruel. Realmente, justiça não parece ser o forte da humanidade. Ainda assim, é possível ser feliz. Quanto mais eu cresço, mais vou deixando para trás esse pensamento de que as coisas vão indo de mal a pior. Não é um otimismo cego da minha parte, nem haveria espaço para isso, mas auto-confiança, acredito que eu consiga dar certo apesar das circunstâncias. Não coloco minha mão no fogo pela espécie, mas também não vou deixar que isso contamine meu mundo particular.

Meu último e mais significativo passo em direção ao mundo real foi ter saído da casa de meus pais. Essa talvez tenha sido a maior mudança pela qual já passei, e não arruinar tudo daqui para frente só depende de mim. Ainda falta muito para poder dizer que encaro o mundo real, então é possível que quebre a cara e mude de idéia no futuro, mas torço para que isso não aconteça. Meu maior medo é fracassar, ver que perdi minha aposta em mim mesmo. Mas esse medo não me paralisa, e sim motiva.

A próxima e derradeira etapa é me emancipar financeiramente. Porque ainda dependo completamente dos meus pais para garantir minha renda, sequer teria tempo de trabalhar se quisesse. Sou muito grato por isso e por tudo mais que eles fizeram e fazem por mim, mas sei que o apoio monetário acabará um dia. E então vou estar definitivamente jogado no mundo real, por enquanto, só posso falar da experiência de morar sozinho.

A primeira barreira encontrada é a prática. Não tinha experiência com afazeres domésticos, talvez tivesse sido melhor treinar antes, mas não encontrei tanta dificuldade quanto imaginava. Lavar, passar, limpar, cozinhar, etc, não é tão complicado assim, não é divertido, lógico, mas pensei que fosse pior. A parte realmente curiosa é que essa mudança de hábitos alterou meu comportamento. Certo dia, quando começou a chover, a primeira coisa que pensei foi “ufa! Ainda bem que tirei a roupa do varal pela manhã”. E é assim com todo mundo, porque ouvi um comentário de um sujeito que estuda comigo: -Ah, eu queria ir no mercado.

Confesso: virei dona-de-casa. E, de repente, aquele pensamento do mundo cruel vai se desvanecendo. Óbvio que a vida é mais que passar roupa, não sou tão ingênuo. Meu ponto é que, se eu consegui tirar aquela mancha da minha toalha, eu posso fazer qualquer coisa, então tudo pode dar certo no final. Vai ver o John Mayer estava mesmo certo na letra de No Such Thing:

“I just found out there’s no such thing as the real world
just to lie you’ve got to rise above”

O mundo não me dá mais tanto medo. E com essa experiência estou aprendendo outra coisa: mudar o ambiente, os hábitos e o comportamento não vai mudar o que eu sou. Se eu quiser mudança preciso me esforçar, ela não virá passivamente. Isso é algo que eu não esperava. Pensava que quando fosse morar sozinho, iria começar uma vida nova, seria quem eu quisesse. Talvez passasse a ser arroz de festa, a beber, a curtir as coisas de forma inconseqüente. Apesar de saber que isso é sinal de imaturidade, sentia um certo remorso de não ter feito, como se faltasse um pedaço da minha adolescência, não tivesse vivido tudo que deveria.

Como eu disse, não funcionou, continuo sendo o mesmo Leandro que acha essa curtição etílica perigosa uma grande bobagem. Mas agora estou conformado, não nasci para ser party boy, posso partir feliz para outra. O saldo é positivo, economizei dinheiro, tempo e uma adolescência brigando com meus pais. Tomara que eu não me arrependa e queira retomar o retroativo no futuro, mas acho muito difícil isso acontecer.

Até agora, está sendo ótimo. Então, que venha o mundo real. Nunca estive tão pronto.

Escrito por Leandro Facchinetti, com correções de Vanderlei Facchinetti, e publicado Sexta-feira, dia 14 de Março de 2008.
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