Supostamente, deveria ser muito simples para mim, emitir uma opinião sobre a pirataria. Meus pais me sustentam, e eles vivem das locadoras de filmes que têm. Então, dependo do aluguel de dvds legalizados, sendo assim, eu deveria combater a pirataria e ser veemente contra ela.
Pois não é assim que funciona, porque sou ponderado, então deixe-me elaborar um pouco mais. Por um lado é claro que a pirataria está matando as produtoras tradicionais de conteúdo. O baque na indústria é forte e percebido por todos que estão no meio. Mas se você analisar a fundo, verá que ela estava fadada a acabar, de uma forma ou de outra, pelo menos nos moldes tradicionais que reconhecidamente funcionaram no século passado.
Com a revolução tecnológica que vivemos, e a facilidade de acesso às ferramentas de produção, está claro que evoluiríamos para a criação e consumo localizados. É a formação de nichos que prega a teoria da cauda longa. De forma que a pirataria no máximo está acelerando um processo natural.
Há de se admitir, ainda, que em alguns casos a pirataria foi involuntariamente a melhor promoção que um produto poderia ter. É o caso do megahype do Tropa de Elite, por exemplo. O filme é ótimo, um dos melhores filmes nacionais que já vi. Apesar de explorar um tema que já se tornou repetitivo, é de qualidade comparável ou superior aos padrões americanos. E sem se render a ele, pois possui uma estética genuinamente nacional.
Mesmo assim, eu duvido que ele teria feito tanto sucesso se não tivesse vazado antes e virado notícia. É triste que isso seja a verdade, mas ser piratiado foi bom, nesse caso.
Outro exemplo disso é o jailbreak do iPhone. Não fosse ele, as vendas do aparelho não seriam as mesmas. Especialmente para os consumidores das áreas não abençoadas pela Apple, onde comprar um iPhone seria jogar dinheiro fora. Sendo assim, por mais que eles digam que quem desbloqueou não é cliente Apple, eles estão ganhando com a pirataria. Levantam-se outras questões referentes a isso, mas são secundárias para o que estou discutindo.
Até entre os softwares que ganham com licenças, vejo um lado positivo na pirataria. Não fossem os desenvolvedores que usam o Adobe Flash pirata, por exemplo, dificilmente ele teria se tornado padrão na web. E isso inibiria a venda para aqueles que realmente pagam. Com o Windows acontece o mesmo.
Sei que essa defesa é paternalista e problemática. De fato, em um mundo ideal a pirataria não seria necessária, todos pagariam pelos produtos que consomem e seriam felizes. Mas não é assim que funciona no meu mundo, e especialmente no país onde vivo.
Para piorar a situação, as produtoras de conteúdo vão na contramão. Elas não se ajudam, relutam em se adaptar à nova realidade. Espera-se que elas mudassem seus planos de negócios. Diminuindo os preços para entrar na competição, ou justificando a diferença com um produto de alta qualidade, para atingir os públicos mais exigentes.
Não é o que vejo, os CDs hoje em dia, por exemplo, custam uma fortuna, e tem acabamento abaixo da crítica. Muitas vezes o encarte é apenas uma folha dobrada ao meio. Isso sem falar nas táticas frustradas de entrar pela porta dos fundos em um mercado que não conhecem mais.
Mesmo correndo o risco de contaminar meu argumento por me fazer parecer um apologista, tenho que confessar que sou um pirata, também. Tenho muitos gigas de músicas e softwares ilegais. Talvez isso seja culpa do preço ou da falta de oferta, no caso das canções, já que não há uma loja de venda on-line decente no Brasil. Mas não é justificativa convincente o suficiente, sei que estou agindo errado e não me orgulho disso.
Para aumentar a contradição, defendo os direitos autorais sobre textos. Copiar e dizer que é seu, um artigo de um blog cuja licença não permite tal prática, é pirataria, e é uma atitude nojenta. Mesmo que esteja sob uma licença permissiva, assumir a autoria de algo feito pelos outros é falta de respeito. Não acho isso só porque estou escrevendo um blog, já tinha essa idéia muito antes de começar. E não estou sozinho nessa defesa.
Não encontrei ainda nenhum texto meu em outros lugares, sem que eu tenha dado permissão. Mas creio que isso acontecerá, porque infelizmente parece ocorrer com freqüência. O que denuncia a falta de capacidade de produzir conteúdo de qualidade e a falta de caráter em se apropriar do material alheio existente em muita gente.
É complicada minha opinião sobre o assunto. Muitas vezes reflito sobre algum aspecto de forma diferente do que fazia antes, e chego a uma nova conclusão, mudando de opinião. Por isso, posso vir a discordar do que disse aqui, e escrever sobre isso novamente no futuro. Por enquanto, é isso que penso.
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