Síndrome do músico amador Late Review - Scrap MTV
Fev 09

Ano passado, um dos eventos que mais marcou a blogosfera (senão o mundo!) foi uma campanha publicitária do Estadão. Ela colocava os blogueiros no mesmo nível de macacos, quanto a produzir conteúdo de qualidade. Naturalmente, muitas pessoas se queimaram com isso, e a discussão culminou em um debate, em que estavam presentes representantes dos dois lados.

Foi um fracasso, para o nosso lado. Por isso, o verdadeiro Miss Cangaíba da blogosfera nacional se propôs a fazer uma apresentação no BlogCamp do Rio, que teria como objetivo ensinar a arte de debater. Até onde sei, ele não chegou a executar a idéia, mas mesmo que tenha feito, resolvi a aproveitar o gancho para escrever este breve Manual.

Este texto tem como base o SuperManual da SuperInteressante de Junho de 2007, uma análise das técnicas de argumentação de Richard Dawkins no livro Deus, um Delírio e minha própria experiência, que é pequena, apesar de eu me interessar muito pela questão. Essas práticas podem ser úteis em debates com representantes da velha mídia, discussões filosóficas em geral, ou papo furado na mesa de bar.

Postura

Muitas vezes, apresentar-se de maneira apropriada chega a ser mais importante que ter bons argumentos. Por isso, antes mesmo de entrar em técnicas de retórica, preocupe-se com sua postura.

O primeiro item, em ordem de importância, é manter a calma. Seu objetivo deve ser irritar o adversário, para que ele se perca, e uma ótima forma de fazer isso é não ficando nervoso. Veja bem, manter a calma não significa ser manso e submisso. Você deve se impor, ainda que seja uma discussão com muitas pessoas, fale, você será ouvido, não há o que temer. Interrompa os outros ou eleve seu tom de voz, se necessário, delicadeza serve para tratar com sua mãe, não para um debate.

Mas não exagere, fique dentro do limite do bom senso. Isso vale para todos os outros quesitos, as pessoas ficam mais dispostas a concordar com você se você for elegante. Por isso que os discursos aos berros não são bem recebidos.

Durante o curso do debate, mesmo que você esteja visivelmente perdendo, não demonstre ter consciência disso. Existe uma velha máxima que diz: “não deixe o que o vejam sangrar”. Se você aparentar fraqueza, ela será usada contra você. Isso não deixa de ser uma reafirmação do primeiro item “mantenha a calma”. Para alguns essa atitude pode soar como arrogância, mas está longe de ser isso, é auto-confiança. Lembre-se de que sempre é possível fazer como o Rocky e virar o curso da partida no fim.

Exceto no caso de um debate guiado por um moderador, tente guiar o curso da discussão. Se for o caso, desvie o assunto para algum ponto em que seu argumento é forte, afinal é melhor lutar em território amigo. Isso pode ser feito respondendo uma pergunta ligeiramente diferente da que foi feita, ou interpretando o interlocutor de forma um pouco diferente da que se espera.

Além de tudo isso, as velhas regras de apresentação em público continuam valendo. Não gesticule de mais, não gagueje e, especialmente importante, não use vícios de linguagem. Estou me referindo ao né? no fim de cada frase, ou o ãh para preencher o tempo que você usa para pensar a próxima frase que vai falar. Não há nada de errado em pontuar o discurso com silêncio, é até bom, confere ritmo as sentenças, o que pode facilitar o entendimento.

Argumentação

Antes de começar qualquer debate, prepare-se, parece uma recomendação óbvia (porque é) mas freqüentemente é negligenciada. É preciso que seu ponto de vista esteja muito claro para você, de outra forma será muito difícil convencer que sua idéia está certa. Saiba, inclusive, quais são os pontos fracos do que você defende, seu objetivo será fugir deles, logicamente.

Tente, também, prever quais serão as réplicas, e já prepare a argumentação que usará para elas. Para isso, pode ser uma boa idéia, durante a preparação, defender o ponto de vista contrário, por um momento. Não subestime seu adversário, se ele for fraco, ótimo, mas esteja preparado para o pior. Contar com baixo nível do concorrente é um erro fatal mas comum, e fácil de ser evitado.

Busque a maior quantidade possível de fatos e fontes para embasar seu discurso. A falta de referências pode ser determinante na hora de convencer um cético, não espere que as pessoas acreditarão no que você diz simplesmente porque você disse. Procure citações e outras pessoas que concordem com você. Dê preferência a figuras ilustres e admiradas pelo público que você quer convencer.

Na hora de falar, adeque seu vocabulário ao público. Ele não será convencido se não entender o que você diz. Por outro lado, pode ser uma tática interessante ofuscar seus oponentes esporadicamente usando termos complicados, para dar a impressão de que você é profundo conhecedor do tema, ou simplesmente para deixar o interlocutor sem fala. Novamente, é fundamental o uso do bom senso, para essa técnica.

Caso a argumentação do seu inimigo seja absurda, use comparações exageradas para mostrar como ele está errado. Metáforas e analogias desproporcionais são métodos comuns de argumentação, apresente uma tese ridícula, por exemplo, depois sarcasticamente compare ao que foi defendido pelo oponente. Não tenha medo de usar palavras fortes, desde que não sejam ofensas ou manifestação de preconceito, vale tudo. Apenas tome o cuidado de não ser caricato, atente para a lei de Godwin, senão você não será levado à sério.

São raras as vezes em que os dois lados discordam completamente sobre uma questão. Perceba quais as semelhanças entre as idéias e parta delas, concorde com o adversário, talvez até elogie-o por pensar assim, e então conduza ao seu ponto de vista. Assim aumentam as chances do que você diz ser bem recebido. Desconstrua o discurso do oponente, deixando claro o caso em que, mesmo havendo concordância, os motivos que levam vocês a pensar da mesma forma são diferentes.

Saiba que nem sempre o inimigo do seu inimigo é seu amigo. Lembre-se de que, se você quer convencer alguém, esta pessoa deve enxergar o tema pelos seus olhos, por um momento. Mas a capacidade humana de lidar com a complexidade é limitada, por isso, mostre suas idéias aos poucos e atenha-se a poucos pontos. Enxugue raciocínios, seja breve nas demonstrações e contenha-se nos exemplos. Correndo o risco de eu mesmo cair na lei de Godwin, recorro ao exemplo de Hitler, que antes de estadista, era um grade orador. Seus discursos não eram longos e não tratavam de muitos tópicos, não preciso dizer que sua capacidade de convencimento era grande.

Deixe sua melhor defesa para o final. Seu objetivo é amansar o oponente, trazê-lo para perto, e depois nocauteá-lo. Mesmo que para isso seja preciso recuar em um ponto com o objetivo de reforçar outro.

Caso não esteja surtindo efeito, mude o alvo, desqualifique o oponente. Nunca perca a elegância, mas seja irônico e invalide o que está sendo dito. Se achar conveniente, desmonte o artifício da retórica dele, diga que ele só concorda com parte do que você diz para lhe levar a outra conclusão, por exemplo.

Por último, muito cuidado ao blefar. Se possível, evite esta técnica. Honestidade é importante, afinal você deve ser capaz de provar tudo que diz. Mas essa é uma obrigação do seu oponente também! Use isso ao seu favor, quando puder. Algumas vezes, ele pode estar simplesmente mentindo.

Conclusão

Alguns podem me acusar de ter forçado. Falar que por vezes recomendei a falta de educação, incitei jogo sujo. Não é assim que vejo, essas são técnicas que uso, e nunca fui acusado de ser indelicado. Por fim, defendo-me garantindo que as discussões que ocorrem no mundo real são dessa forma, as pessoas não são sempre um exemplo de gentileza, pelo contrário, e você deve estar preparado para isso.

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Escrito por Leandro Facchinetti e publicado Sábado, dia 9 de Fevereiro de 2008.
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  1. E aí, bixo? | Leandro Facchinetti diz:

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