Sou satisfeito com o nome que meus pais me deram: Leandro. Não é estranhamente incomum, nem popular o suficiente para eu encontrar homônimos em todo lugar. É fácil de escrever, ninguém fica com dúvidas na grafia, não preciso esclarecer se é com v ou w, i ou y. Fico incomodado quando confundem com Leonardo, que nada tem a ver, exceto pela ex-dupla sertaneja, mas consigo viver com isso.
Só que nem todos têm essa mesma sorte. Circulam pela internet listas de nomes que parecem mais vingança por parte dos pais. Desses eu tenho pena, afinal o nome é importante, ele é capaz de criar uma impressão positiva ou negativa logo no primeiro contato. Segundo os autores de Freakonomics, ele influencia até no sucesso que o portador terá na vida.
Acima da todos, entretanto, tenho pena dos que são chamados de João, Maria ou Zé. Sujeito desconhecido é João-Ninguém, aquele que se faz de desentendido é João Sem Braço, piada de criança mal criada é de Joãozinho, o boneco em que você bate e ele volta é João bobo. Quem não toma decisão é Maria vai com as outras; mulher interesseira é Maria gasolina, Maria chuteira; chamam uma planta que dá em qualquer lugar de Maria sem vergonha (o nome científico é Impatiens walleriana, mas as Valérias foram poupadas dessa); até neologismos jogam contra, quando Maria Joana vira sinônimo de maconha.
Pior ainda para os Zés. Além de haver a adaptação de João-Ninguém, que se torna Zé-Ninguém, ainda existe o Zé Povinho; não contentes em chamar os otários de manés, colocaram gratuitamente um Zé na história, criando o Zé-Mané; da mesma forma com o Zé ruela. Sem falar que em todo lugar que você for, há um Zé. Quem não tem um tio Zé?
Nem vou entrar no mérito dos Zé Marias. Tadinhos.
Dentre todos esses Zés, este texto é dedicado a um em especial. O Jackson do Pandeiro, autor de Como Tem Zé, da qual só encontrei essa versão para mostrar a vocês, infelizmente, nesse vídeo não é o próprio Jackson se apresentando:
Não gosto de forró, mas o Jackson é muitas vezes classificado nesse ritmo e ele eu acho genial. O repente talvez seja a manifestação musical genuinamente tupiniquim de que eu mais gosto. Uma pena que poucas pessoas conheçam aqui no Brasil. E lá fora menos ainda, porque outros ritmos nacionais são preferidos pelos ouvidos estrangeiros. Antigamente a bossa nova e a psicodelia dos Mutantes, hoje em dia o som do CSS. Talvez aconteça assim porque esses movimentos tomem emprestadas referências com as quais eles já estão acostumados: o Jazz no caso da bossa, o rock progressivo para os Mutates e o New Rave do Cansei.
Mas é importante saber o que há nas entrelinhas quando o Lenine canta Jack Soul Brasileiro:
O refrão é a Cantiga do Sapo, o interlúdio, Chiclete com Banana, que é do Gordurinha, mas conheci na voz do Jackson. Só depois de muito tempo esse nome batizou a banda de Axé Music. E saiba também que a canção do Lenine foi feita para a Fernanda Abreu, que ajudou a inaugurar o pop rock nacional nos anos 80 com a Blitz, e hoje se diz funkeira.
Já esse funk do Rio, no fundo é Miami Bass, porque funk de verdade é o que James Brown fazia. E o funk, junto de outros estilos black como o R ‘n’ B, foi a base do que se conhece por Hip-hop. Este, por sua vez, apareceu em Nova York em bairros onde moravam muitos jamaicanos, de onde veio o rei do reggae. Analisando o estilo: rimas em cima de uma batida, o hip-hop lembra muito o repente. E, de repente, a gente chega de volta no Jackson do Pandeiro.
No fim, está tudo interligado, é tudo uma coisa só. Mesmo nascido em 1919, o Jackson está entre nós até hoje. É assim que as coisas funcionam nesse mundo de Joães, Marias e Zés.

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